Escarros, devaneios,
gozos, delíquios,
transpirações e inspirações,
flexões e rodopios,
cabriolas, piruetas,
homenagens e influências,
confissões e disparates,
asneiradas clericais,
herméticas patacoadas,
elementos de percurso,
marcos de uma viagem,
balizas de uma vida
na dor e no prazer,
no casto e no foder,
no amada e no amante,
sedentário ou errante,
universo flutuante,
sombra de véu delicada
no dedilhar de um corpo
como com a puta da vida,
sonho de ave ferida
dentro da árvore caída
que voar não conseguia,
espécie de verme lombriga
que serpente almeja ser,
e que escreve por saber
que o que aqui ides ler
mais não é do que
escarros, devaneios,
gozos, delíquios,
transpirações e inspirações,
flexões e rodopios,
cabriolas, piruetas,
homenagens e influências,
confissões e disparates,
asneiradas clericais,
herméticas patacoadas,
elementos de percurso,
marcos de uma viagem,
balizas de uma vida
na dor e no prazer,
no casto e no foder,
no amada e no amante,
sedentário ou errante,
universo flutuante,
sombra de véu delicada
no dedilhar de um corpo
como com a puta da vida,
sonho de ave ferida
dentro da árvore caída
que voar não conseguia,
espécie de verme lombriga
que serpente almeja ser,
e que escreve por saber
que ninguém o irá ler!
Ricardo Cerveira de Abreu Castelo Branco
also known as
O refúgio dos Cães
e
Willy The Pimp
Estefânia, 2007-02-18, 19h50m
domingo, fevereiro 18
sábado, fevereiro 17
Palegrafia moderna IV
sexta-feira, fevereiro 16
Fernando Guilherme Azevedo, poeta maldito dos nossos tempos, destruidor de mentalidades burguesas, louco, bêbedo e grande amigo

Pois é menino, no meio dos grandes e dos meu alinhavar de palavras, chegou agora a tua vez.
Não vou espetar aqui a tua carantonha uma vez que as pessoas se iam assustar e deixavam de te comprar os livros e lá se ia o dinheirito para os copos e para aquele morder as consciências das merdosas anafadas, dos maridos mais ou menos cornudos, dos imbecis mais ou menos esclerosados que, tantas vezes, nas nossas conversas, entre um copo teu e um café meu, longamente, te vi exercitar.

E eras ferino e corrosivo. Zurzias os fachos e os comunas, as putas e as beatas, os intelectuais de banco de café como os psiquiatras. Eram bons esses momentos passados no café do bairro. E cada vez se tornaram mais raros, agora que mudei de casa e nos vemos menos.

Mas continuo a ler-te e muitas das coisas que disseste, entre os vapores do alcool ou para além da poalha mental dos comprimidos, continuam a ser radicalmente verdadeiras, genuinamente puras e depravadas, torcidas como as raízes da oliveira, etéreas e caprichosas como o voar da vespa, sinuosas e pervertidas num grande coração de anarca louco.

Por isso sou teu amigo. Por seres tão diabolicamente genial quando não bebes e por isso te parto a carola, aqui e sempre, para não beberes. E por saber que a nossa amizade vai continuar para além de todos os teus copos e de todas as minhas partidelas de carola. De qualquer forma, menino, eu não vim para aqui para te lixar a ínclita cornadura mas para te dizer
Já entraste para a minha Academia Íntima de Afectos!
e ,posto isto, falar um pouco da tua obra e dar-te a conhecer se é que alguem vai ler isto para além de nós os dois.
O Fernandinho, residente em São Domingos de Benfica, não apresenta, à semelhança de tantas glórias do mercado livreiro, uma espécie de biografia na bandeira da capa dos livros pelo que, dentro da minha ignorância, vou ter de inventar.
Assim fica mais fixe.
Acredita menino.

Nasceste em data tão remota que o pudor já cobre com um véu, cresceste, multiplicaste-te, ensandeceste, criaste, viveste, vegetaste, criaste, criaste, crias...
Acho que pelo aspecto biográfico despachei a coisa com uma síntese magistral. Agora vamos à bibliografia.

Para além de colaborações no suplemento DN JOVEM do Diário de Notícias e no Jornal de Letras, participaste na Poiésis III (Março de 2000), na coletânea de contos Conta-me Estórias (Abrilde 2000) e na de poesia Incomensurável (Maio de 2000), todos publicados pela MINERVA. Depois veio a ligação à Universitária Editora e com ela o Avulso Esplendor de uma Luz Habitada (2000) e Crónica de um político brilhante: (ou a menopausa dos concordes), já em 2005. Pelo meio ficava o posfácio a Ignota Fauna do Paulo Dinis e Abreu (2005).
E agora, como não tenho grande jeito para a função e caio na lamechice, só me resta acrescentar, citando Paulo Dinis e Abreu e Michel de Montaigne:
e passar à poesia que é coisa mais séria que este meu paleio:
Sou um estrangeiro que passa por mim.
Alheio, disperso.
A transfiguração da idade
Aclara-me, mas névoa.)
A imprecisão atómica do mundo
Sempre nos conduz a uma inabitação
Das coisas que nos entram pelo olhar
Como chama trémula a morrer na calçada.
As pedras.
As imemoriais pedras dos monumentos
Gritam, chamam por nós.
Como se o último, verdadeiro segredo
Fosse retornarmos às estátuas que fomos,
Divindades latentes nos passos que cruzamos
Nos passos uns dos outros.
Porque os caminhos são eternos,
E as fontes sempre jorrarão,
Como crianças leitosas a alcançar-nos
Uma outra forma do mundo
Que finalmente proporcionará repouso,
Estrelas sonolentas no húmus dos olhos.
_____________
Ser solitário é um estado de alma
Que perpetua lençois brancos,
O branco da castidade.
O homem solitário tem no seu olhar
A virgindade com que adora os outros homens,
Com que beija impoluto a Mulher-Mãe.
Ser solitário não é necessáriamente sofrimento,
Porque há encontro dentro de nós,
Na mais íntima construção da fortaleza
Que vence o tremor de flores delicadas
Que, qual verme, por vezes nos assalta de incredulidade.
Ser solitário é sobretudo estar predisposto,
Preparado para não mais o ser,
E de novo voltar a si próprio e à auto-companhia
Quando os ventos dos rostos e dos mundos
Devolvem a acidez onde só a ermida dela nos protege...
_________________________
O último telejornal
Germina opiniões especializadíssimas!
Todos comentam as últimas informações
Com uma sabedoria
Que quase são ministros filósofos.
Relembram-se treinos militares
E emborca-se imperiais.
Eu, querendo sossego,
Não mais que verdadeiro, pacífico sossego,
Oiço tudo isto
Como alguém que vem de muito longe.
Tento a todo o custo não escutar,
Mas eles teimam, eles são sábios
Assim, troco forçosamente
As memórias daquela que amo
por uma quase-morte do sentir
Genuinamente.
Oh, tenho tanta pena...
Que esta gente
não se evapore ou emigre,
Ou prepare a cama
Para nunca mais acordar!

e quem quiser saber mais do cromo que és que te vá ler ao teu blog:
http://fernandoguilhermeazevedo-hugoflavio.blogspot.com/
um abraço menino
Paleografia Moderna III

Não podemos aqui calar a nossa mais profunda consternação por, no nº 24 da Rua José Estêvão, sito nesta nossa cidade de Lisboa, continuarem a subsistir os atropelos aos direitos dos animais e à legislação comunitária.

Como toa a gente sabe a lagarta é aquele animalzinho simpático que, de obscura cagadela num sítio sombrio e húmido, vai passando a larva, crisálida, casulo (na fase fetichista) e acaba por se transformar em borboleta. A sua capacidade de sobreviver em diferentes ambientes leva-a a escolher habitats tão distintos como os pratos de salada das cantinas universitárias, o estádio de alvalade (preferiam o antigo. Da última vez que as centopeias as foram aí visitar escorregaram e partiram as pernas nos azulejos de casa de banho.), hortas, e outros sítios onde criaturas desprovidas de coluna vertebral possam pastar como é o caso do parlamento, do patriarcado, quarteis, sede do PRN, casas de putas e afins.
Prender uma lagarta num elevador, mesmo que situado na Estefânia e num prédio de gente bem, é um crime inadmissível, um inqualificável atropelo à dignidade da lagarta. Se o problema é já grave, mais ainda se tornará quando, após a saída do casulo, tiver de esticar e secar as asinhas na caprichosa intermitência da luz do elevador. Mais ainda, como não foram criadas condições de acessibilidade para a lagarta no dito elevador, a pobre vai ter de se sujeitar à humilhante situação de ter companhia no elevador. Convenhamos que se trata de uma actividade íntima e não adequada ao voyeurismo mirone dos utentes do já mencionado elevador.

E que dizer ainda a respeito dos efeitos nefastos que a nicotina poderá causar à saúde da dita lagarta: cancro da penugem, endurecimento das articulações, bicos de papagaio, um rombo na carteira, alteração da cor das asas por causa da nicotina, ejaculação precoce, impotência e chatices muito sérias na borboletopausa.
Finalmente, trata-se de uma flagrante violação ao direito de circulação comunitário que, por ser tão grosseira, nos escusamos de comentar.
Não vos lembraides da lagarta que há em todos nós, naquela lagartinha maluca da Alice in Wonderland da nossa infância, e eu da então assistente e hoje PROF e fanática da TLEBS Clara Correia às voltas com a Alice au Pays du Langage da Marina Yaguello, e tantas e tantas outras recordações individuais e colectivas que logo nos acorrem ao pensamento quando dela ouvimos falar. É por isso, para que todos nós sejamos capazes de recordar e deixar em tributo vivo aos vindouros aquele olhar brando, doce, meigo e piedoso como a Laura de Petrarca
-- discordamos obviamente da posição de Pedro Santana Lopes que, no seu livro Causas de Cultura refere ter Petrarca tido um caso com Beatriz e Laura ser a amada platónica de Aretino --, para que também eles, os nossos filhos, netos, bisnetos e outros a vir possam, também eles, interromper a leitura da Menina e Moça sob a sombra dos amieiros e contemplar tão augustas faces.Posto isto, lançamos daqui o apelo a quem de direito,
às autoridades,
aos desautorizados,
aos partidários do SIM (tirando a Inês Pedrosa),
aos partidários do NÃO (tirando todos menos uma menina de t-shirt do Não justinha num dia de campanha à chuva),
aos defensores dos animais,
aos amantes dos programas do Manuel Luis Goucha´,
à Sociedade Filarmónica e Recreativa dos Confrades da Irmandade da Boa Pinga,
às putas como aos políticos,
às portuguesas (com especial interesse por uma certa menina de t-shirt do Não justinha num dia de campanha à chuva e satitantes seios túrgidos),
aos portugueses,
meninas e meninos,
unide os vossos corpos num abraço fraterno e ergueide a voz, juntando-a à nossa, ao sempre crescente número de membros, militantes ou apenas simpatizantes, curiosos ou penetras que o MLLE - Movimento de Libertação da Lagarta de Elevador tem vindo a registar nas suas fileiras:















num único, enorme, gigantesco grito, numa só voz, numa só vontade, numa mole colectiva que avança inexoravelmente para a plenitude do século XXI e cujo eco irá ser visto pelo Hubble no século XXXXXVIII e gritaide:

quinta-feira, fevereiro 15
Notícia de última hora

Depois de Ramalho Eanes o ter obtido, chegou agora a vez de Lili Caneças obter o doutoramento honoris causa, desta vez e ao contrário do ilustre predecessor, em French kiss Studies (ele bem tentou mas acabou por desistir uma vez que o seu aparato e cavidade bucal eram demasiado hirtas para se exprimir livremente).
A tese, bem estruturada no arco de um vida de trabalho e sustentada com a experiência adquirida, agradou ao Juri, -- constituido por importantes personalidades devidamente avalizadas para poderem julgar a obra da candidata, onde avultam os nomes de José "Castel-Branco" Vieira, Cinha Jardim, Alexandre Frota, Jorge Silva Melo e Paulo Portas --, que considerou como pecando por defeito a classificação de: «Aprovada a plenos votos com louvor e distinção».
De notar a clara influência poética expressa em jogos redundantemente fónicos à maneira da Rose Selavy de Robert Desnos patente em doces e canoras afirmações.
Não querendo fazer morrer de impaciência o leitor com a espera -- aproveitamos para informar que da tese será feita uma edição a coincidir com a entrada da Alexandra Solnado para a Academia --, não resistimos aqui a deixar uma frase cheia de graça:
A Tátá disse-me que a Titi fez um tété ao Tótó que o pôs a fazer tútú como os comboios
A citação só foi possível graças à gentil colaboração da autora.
A foto usada, da autoria de Sérgio Lemos, foi publicada no Correio da Manhã de 2006-03-18 e foi aqui usada sem a gentil permissão do autor.
Guido Crepax - estilista do prazer, paladino da dor, desenhador e ilustrador italiano - 1933-2003

Conheci Guido Crepax muito novo, lá para os meus quinze anos, em casa de um amigo, e, por muito que me custe confessá-lo a mim mesmo, já não me recordo de que album se tratava. Creio que era a Valentina mas não estou certo. Sei que na altura amei e odiei o desenho. Amei porque a estilização dos corpos nus marcados pelo capricho que transforma um traço negro sobre uma folha branca em algo de uma sensual fluidez reprimida no apertado abraço de um corpete não me foi estranho. Era como ver a fluidez das joias de Lalique aplicadas a uma nova estética e a uma imagética à qual não podia deixar de ser sensível o então muito medievalmente designável Cavaleiro das Hormonas Saltitantes e actual subscritor destas linhas. Odiei porque não tinha ainda bebido o doce fel que liga intimamente a dor e o prazer no relacionamento carnal. Os anos foram passando e, lentamente, como o seu sinuoso traço longilíneo na folha de papel branca, o gosto pela arte de Crepax foi-se insinuando como um fio de arame que nos atravessa a carne, sinuosa, ferina, comoventemente bela, foi-se entranhando como um fogo, uma secreta paixão. Aproveitei as idas e a vivência em Itália para o conhecer melhor.

Recordo-me da Helen, a americana louca de olhos azul magiar na pele cobreada da Califórnia. Estavas a começar a vida como actriz depois de anos de estudos de arte dramática e workshops marados e tinhas ido a Roma com uma amiga passar uma semana numa dessas coisas de trocar de casa por um período determinado e cuja única designação apropriada poderia ser Swing imobiliário. Sei que te desejei ao ver-te atravessar Campo di Fiori e passar em frente de Giordano Bruno, depois viras-te para a fonte, ultrapassaste as últimas barracas do mercado da fruta e dirigiste-te para a esplanada. Olhei para Donato, o único funcionário em sistema de acumulação com as funções de sonhador, proprietário, idealista, louco e excelente amigo, peguei na travessa, pisquei-lhe o olho. Ele sorriu com um sorriso cumplicemente matreiro e sedutor da Basilicata e encostou-se ao balcão com um ar muito profisional. Aproximei-me admirando-te os ombros morenos e adivinhando-te a nuca por debaixo dos caracois negros; depois, passando-te pela esquerda, sorri com olhos de carneiro mal morto e abordei-te em italiano. Tu nada percebeste o que não me surpreendeu grandemente, uma vez que era uma daquelas americanas flacidamente DOC e com aquele colocar a boca de lado ao falar e umas madeixinhas cor de rosa que funcionavam como certificado de origem controlada quem se sentava a teu lado. Passei rapidamente para inglês, de uma sonoridade britânica de tipo tradicional que muito te encantou. Sobre a pele lisa, recortados pela penunbra de um lápis sinuoso e longilíneo como o de Crepax, os teus olhos brilhavam de prazer. E servi-te com prazer, e indiquei-te bons itinerários e coisas curiosas em Roma, e juntos fizemos longas caminhadas na noite de Roma, por entre casas e becos obscuros onde se esconde a magia de uma história de grandeza e dor, e muitas foram as conversas tidas ao longo da semana que passamos juntos. Soube que tinhas pago os cursos a dares chibatadas nos rabinhos de uns velhinhos simpáticos de Hollywood e, no último dia, ofereci-te um poster com a capa de Valentina.

Adoraste e estendeste a cabeça para me dar um beijo no momento em que as portas do comboio que de Roma Ostiense te iam levar a Fiumicino se fechavam. Forcei as portas, recolheste a cabeça e o pescoço marcado por um longo rubor onde, como nos teus olhos sonhadores, se lia estilo, prazer e dor.
Voltei de Itália e tenho notado que, em Portugal, Crepax continua a ser um quase desconhecido. Por essa razão, por querer partilhar o gosto e difundir a obra de um dos melhores desenhadores italianos do século XX vou aqui transcrever a homenagem que, por altura do falecimento de Guido Crepax (31/07/2003), Sidney Gusman publicou na publicação online brasileira Notícias Quadrinhos. As fotografias serão inseridas nos locais respectivos ao correr do texto e, sempre que possível, mantendo a formatação original. O original encontra-se no seguinte endereço:
http://www.universohq.com/quadrinhos/2003/n31072003_07.cfm
a data de acesso é a data deste post e não me está a apetecer partir a carola com meta-informação e com o Dublin Core. Por isso, eis o texto:
Valentina e seus fãs estão órfãos: Guido Crepax morreu

As belas Valentina, Anita e Bianca estão vestindo preto! Morreu hoje, em Milão, Itália, o desenhista Guido Crepax. Ele havia completado 70 anos no último dia 15 de julho. O funeral será realizado sábado, no cemitério Monumentale.
Crepax nasceu em Milão, em 1933. Ao vir ao mundo, seu sobrenome era Crepas, mas depois de iniciar sua vida profissional decidiu trocar o "s" pelo "x", por uma questão estética. Formou-se em arquitetura em 1958, mas começou a viver de seus belos traços cinco anos antes, na área da publicidade e fazendo capas de livros e discos. Chegou até a ganhar uma Palma de Ouro, em 1957, com uma campanha para a Shell.

Em 1959, iniciou sua longa colaboração para a revista científica mensal Tempo Medico, para a qual fez mais de 200 capas. Em 1965, passou a ilustrar um quiz médico chamado Clinicommedie (escrito por "Mister Hyde" e Pino Donizetti), que foi sua primeira experiência utilizando a linguagem dos quadrinhos.
Ainda em 1965, no mês de maio, ocorreu sua estréia efetiva nas HQs, nas páginas da Linus, famosa revista de Giovanni Gandini e Ranieri Carano (e depois de Oreste Del Buono e Fulvia Serra), para a qual criou o crítico de arte e investigador Philip Rembrandt, também conhecido como Neutron.
A coadjuvante de Neutron era sua namorada (com quem acabou casando), uma belíssima e curvilínea fotógrafa chamada Valentina. E ela mudou o rumo da série e da carreira de Crepax, tornando-se a protagonista das histórias e a mais importante personagem dos quadrinhos eróticos em todos os tempos.
Valentina foi criada à imagem e semelhança da atriz Louise Brooks, de quem Crepax era fã. Publicada em vários países do mundo, a personagem tem vários álbuns compilando suas aventuras. Com uma mescla de erotismo e devaneios, ela povoou o imaginário masculino por décadas, especialmente na Itália.

O sucesso de Valentina ainda hoje é tão grande, que suas histórias estão sendo reelaboradas, roteirizadas e filmadas para uma série de 13 episódios televisivos, que serão exibidos na Itália, Alemanha, Suíça e Estados Unidos.
Depois de Valentina, Guido Crepax deu vida a muitas outras "musas de papel", como Anita, Bianca e Belinda, além de assinar sofisticadas versões em quadrinhos de clássicos da literatura erótica, como A História de "O", de Pauline Reage; Emmanuelle, de Arsan; e Justine, de Sade. Também fez releituras de clássicos como Conde Drácula, Doutor Jekyll e Mister Hide e Frankenstein, seu último trabalho publicado, em 2002.

Mesmo enquanto esteve envolvido com os quadrinhos, o autor não abandonou a atividade de ilustrador publicitário, na qual atuou até 1991, fazendo campanhas das mais variadas. Artista extremamente versátil, Crepax também assinou centenas de litografias, serigrafias e aquarelas.
Sempre explorando requintes de sadomasoquismo, Crepax foi considerado, durante muitos anos, o "papa" dos quadrinhos eróticos, posto que passou ao também italiano Milo Manara. Com um traço extremamente delicado, um incrível domínio de luz e sombras e diagramações pra lá de ousadas, suas páginas eram autênticos delírios visuais.

No Brasil, especialmente durante as décadas de 1980 e 1990, os leitores tiveram a sorte de ver muitas de suas obras. A Martins Fontes publicou A Vênus das Peles, Emmanuelle, Justine, Conde Drácula e Doutor Jekyll e Mister Hide.
Já a gaúcha L&PM lançou A História de "O", Valentina, Valentina Assassina?, Valentina de Botas, O Bebê de Valentina, Valentina no Metrô, Anita - Uma História Possível, Anita ao Vivo, Bianca - Casa das Loucuras, Bianca - Pensionato de Moças, além de participar da coletânea Casanova.

No entanto, uma de suas obras mais maduras, Lanterna Magica, de 1979, que não tinha um balão de texto sequer, continua inédita por aqui, apesar de ter sido publicada em quase toda a Europa.
Crepax chegou até a fazer duas edições para a Cepim, hoje mundialmente conhecida como Sergio Bonelli Editore: L'uomo de Pskov (1977) e L'uomo di Harlem (1979), ambas na coleção Un Uomo Un'avventura.
O jornal italiano Corriere della Sera disponibilizou em seu site fotos e vídeos da última mostra do artista em Milão. Vale a visita! Afinal, cada vez que se vir um desenho de Valentina, Anita, Bianca ou de qualquer outra de suas sedutoras mulheres, Guido Crepax certamente sempre será lembrado.

As seguintes figuras apareciam numa barra paralela ao texto:






Ilustração de Guido Crepax

Ilustração de Guido Crepax
quarta-feira, fevereiro 14
Alfred de MUSSET - 1810-1857

Nas noites frias de Bordeaux lia-te e aquecia a alma:
Ballade à la lune
C'était, dans la nuit brune,
Sur le clocher jauni,
La lune
Comme un point sur un i.
Lune, quel esprit sombre
Promène au bout d'un fil,
Dans l'ombre,
Ta face et ton profil ?
Es-tu l'oeil du ciel borgne ?
Quel chérubin cafard
Nous lorgne
Sous ton masque blafard ?
N'es-tu rien qu'une boule,
Qu'un grand faucheux bien gras
Qui roule
Sans pattes et sans bras ?
Es-tu, je t'en soupçonne,
Le vieux cadran de fer
Qui sonne
L'heure aux damnés d'enfer ?
Sur ton front qui voyage.
Ce soir ont-ils compté
Quel âge
A leur éternité ?
Est-ce un ver qui te ronge
Quand ton disque noirci
S'allonge
En croissant rétréci ?
Qui t'avait éborgnée,
L'autre nuit ? T'étais-tu
Cognée
A quelque arbre pointu ?
Car tu vins, pâle et morne
Coller sur mes carreaux
Ta corne
À travers les barreaux.
Va, lune moribonde,
Le beau corps de Phébé
La blonde
Dans la mer est tombé.
Tu n'en es que la face
Et déjà, tout ridé,
S'efface
Ton front dépossédé.
Rends-nous la chasseresse,
Blanche, au sein virginal,
Qui presse
Quelque cerf matinal !
Oh ! sous le vert platane
Sous les frais coudriers,
Diane,
Et ses grands lévriers !
Le chevreau noir qui doute,
Pendu sur un rocher,
L'écoute,
L'écoute s'approcher.
Et, suivant leurs curées,
Par les vaux, par les blés,
Les prées,
Ses chiens s'en sont allés.
Oh ! le soir, dans la brise,
Phoebé, soeur d'Apollo,
Surprise
A l'ombre, un pied dans l'eau !
Phoebé qui, la nuit close,
Aux lèvres d'un berger
Se pose,
Comme un oiseau léger.
Lune, en notre mémoire,
De tes belles amours
L'histoire
T'embellira toujours.
Et toujours rajeunie,
Tu seras du passant
Bénie,
Pleine lune ou croissant.
T'aimera le vieux pâtre,
Seul, tandis qu'à ton front
D'albâtre
Ses dogues aboieront.
T'aimera le pilote
Dans son grand bâtiment,
Qui flotte,
Sous le clair firmament !
Et la fillette preste
Qui passe le buisson,
Pied leste,
En chantant sa chanson.
Comme un ours à la chaîne,
Toujours sous tes yeux bleus
Se traîne
L'océan montueux.
Et qu'il vente ou qu'il neige
Moi-même, chaque soir,
Que fais-je,
Venant ici m'asseoir ?
Je viens voir à la brune,
Sur le clocher jauni,
La lune
Comme un point sur un i.
Peut-être quand déchante
Quelque pauvre mari,
Méchante,
De loin tu lui souris.
Dans sa douleur amère,
Quand au gendre béni
La mère
Livre la clef du nid,
Le pied dans sa pantoufle,
Voilà l'époux tout prêt
Qui souffle
Le bougeoir indiscret.
Au pudique hyménée
La vierge qui se croit
Menée,
Grelotte en son lit froid,
Mais monsieur tout en flamme
Commence à rudoyer
Madame,
Qui commence à crier.
" Ouf ! dit-il, je travaille,
Ma bonne, et ne fais rien
Qui vaille;
Tu ne te tiens pas bien. "
Et vite il se dépêche.
Mais quel démon caché
L'empêche
De commettre un péché ?
" Ah ! dit-il, prenons garde.
Quel témoin curieux
Regarde
Avec ces deux grands yeux ? "
Et c'est, dans la nuit brune,
Sur son clocher jauni,
La lune
Comme un point sur un i.
in Premières poésies
Impromptu
(En réponse à la question : Qu'est-ce que la Poésie ? )
Chasser tout souvenir et fixer sa pensée,
Sur un bel axe d'or la tenir balancée,
Incertaine, inquiète, immobile pourtant,
Peut-être éterniser le rêve d'un instant ;
Aimer le vrai, le beau, chercher leur harmonie ;
Écouter dans son coeur l'écho de son génie ;
Chanter, rire, pleurer, seul, sans but, au hasard ;
D'un sourire, d'un mot, d'un soupir, d'un regard
Faire un travail exquis, plein de crainte et de charme
Faire une perle d'une larme :
Du poète ici-bas voilà la passion,
Voilà son bien, sa vie et son ambition.
Le rideau de ma voisine
Imité de Goethe.
Le rideau de ma voisine
Se soulève lentement.
Elle va, je l'imagine,
Prendre l'air un moment.
On entr'ouvre la fenêtre :
Je sens mon coeur palpiter.
Elle veut savoir peut-être
Si je suis à guetter.
Mais, hélas ! ce n'est qu'un rêve ;
Ma voisine aime un lourdaud,
Et c'est le vent qui soulève
Le coin de son rideau.
Par un mauvais temps
Elle a mis, depuis que je l'aime
(Bien longtemps, peut-être toujours),
Bien des robes, jamais la même ;
Palmire a dû compter les jours.
Mais, quand vous êtes revenue,
Votre bras léger sur le mien,
Il faisait, dans cette avenue,
Un froid de loup, un temps de chien.
Vous m'aimiez un peu, mon bel ange,
Et, tandis que vous bavardiez,
Dans cette pluie et cette fange
Se mouillaient vos chers petits pieds.
Songeait-elle, ta jambe fine,
Quand tu parlais de nos amours,
Qu'elle allait porter sous l'hermine
Le satin, l'or et le velours ?
Si jamais mon coeur désavoue
Ce qu'il sentit en ce moment,
Puisse à mon front sauter la boue
Où tu marchais si bravement !
in Poésies nouvelles
Cecco Angiolieri - 1260-1311(?)

SONETTI
I
La mia malinconia è tanta e tale,
ch'i' non discredo che, s'egli 'l sapesse
un che mi fosse nemico mortale,
che di me di pieta [de] non piangesse.
Quella, per cu' m'aven, poco ne cale:
ché mmi potrebbe, sed ella volesse,
guarir 'n un punto di tutto 'l mie male,
sed ella pur " I' t'odio " mi dicesse.
Ma quest' è la risposta c'ho da llei:
ched ella no mmi vòl né mal né bene,
e ched i' vad' a ffar li fatti mei,
ch'ella non cura s'i' ho gioi' e pene,
men ch'una paglia che lle va tra' piei.
Mal grado n'abbi' Amor, ch'a lle' mi diène.
II
S'e' si potesse morir di dolore,
molti son vivi che sserebber morti;
i' son l'un desso, sed e' no me 'n porti
'n aním' e carn' il Lucifer maggiore:
avegna ch'i' ne vo co la peggiore,
ché ne lo 'nferno non son cosi forti
le pene e [li] tormenti e li sconforti
com' un de' miei, qualunque è l[o] minore.
Ond' io esser non nato ben vorria,
od esser cosa che nnon si sentisse,
poi ch'ì' non trovo 'n me modo né via:
se non è 'n tanto che sse si compisse
per aventura omai la profezia,
che ll'uom vuol dir, ch'Anticrísto venisse.
III
" Becchin' amor! " " Che vuo', falso tradito? "
" Che mmi perdoni ". " [Tu] non ne se' degno ".
" Merzé, per Deo! " " Tu vien' molto gecchito ".
" E verrò sempre ". " Che saràmi pegno? "
" La buona fé ". " Tu nne se' mal fornito ".
" No inver' di te ". " Non calmar, ch'i' ne vegno ".
" In che fallai? " " Tu ssa' ch'i' l'abbo udito ".
" Dimmel', amor ". " Va', che tti veng' un segno! "
" Vuol pur ch'i' muoia? " " Anzi mi par mìll' anni ".
" Tu non di' bene ". " Tu m'insegnerai ".
" Ed i' morrò ". " Omè, che ttu m'inganni! "
" Die te'l perdoni ". " E cché. non te ne vai? "
" Or potess'io! " " Tegnoti per li panni? "
" Tu tieni 'l cuore ". " E terrò co' tuo' guai ".
IV
Qualunque giorno non veggio 'l mi' amore,
la notte come serpe mi travolto,
e sì mmi giro, che paio un bigollo,
tanta è la pena che sente 'l meo core.
Parmi la notte ben cento mili' ore,
dicendo: " Dio, sarà mma' dì, vedròllo? ";
e tanto piango, che tutto m'immollo,
ch' alcuna cosa m'aleggia 'l dolore.
Ed i' ne son da llei cosi cangiato:
ché 'nn-una [che]d e' giungo 'n sua contrada,
sì mmi fa dir ch'i' vi son troppo stato,
e ched i' voli, si ttosto me'n vada,
però ch'ell' ha 'l sul amor a ttal donato,
che per un mille più di me li aggrada.
V
S'i' fosse fuoco, arderei 'l mondo;
s'i' fosse vento, lo tempestarei;
s'i' fosse acqua, i' l'annegherei;
s'i' fosse Dío, mandereil' en profondo;
s'i' fosse papa, allor serei giocondo,
ché tutti cristiani imbrigarei;
s'i' fosse 'mperator, ben lo farei:
a tutti tagliarei lo capo a tondo.
S'i' fosse morte, andarei a mi' padre;
s'i' fosse vita, non starei con lui:
similemente faria da mi' madre.
S'i' fosse Cecco, com' i' sono e fui, torrei le donne giovani e leggiadre:
le zop[p]e e vecchie lasserei altrui.
VI
Tre cose solamente m'ènno in grado,
le quali posso non ben ben fornire,
cioè la donna, la taverna e 'l dado:
queste mi fanno 'l cuor lieto sentire.
Ma sì mme le convene usar di rado,
ché la mie borsa mi mett' al mentire;
e quando mi sovien, tutto mi sbrado,
ch'i' perdo per moneta 'l mie disíre.
E dico: " Dato li sia d'una lancia! ",
ciò a mi' padre, che mmi tien sì magro,
che tornare' senza logro di Francia.
Ché fora a torli un dinar[o] più agro,
la man di Pasqua che ssi dà la mancia,
che far pigliar la gru ad un bozzagro.
VII
No si disperin que[lli] de lo 'nferno',
po' che n'è uscito un che vlera chiavato,
el quale è Cec[c]o, chlè cosi chiamato,
che vi credea stare in se[m]piterno.
Ma in tal[e] guisa è rivolto il quaderno,
che sempre viverò grolificato,
po' che messer Angiolieri è scoiato,
che m'afrig[g]ea d'estate e di verno.
Muovi, nuovo sonetto, e van[n]e a Cec[c]o,
a quel che giù dimora a la Badia:
digli che Fortar[rligo è mezzo sec[c]o;
che no si dia nul[l]la mani[n]conia,
ma di tal cibo imbe[c]chi lo suo bec[c]o,
ch'e' viverà più ch'Enòch e[d] Elia.
VIII
Lassar vo' lo trovare de Becchina
Dant[e] Alig[hi]eri, e dir del Mariscalco:
ch'e' par fìorin d'or, ed è d'oricalco;
par zuc[c]ar cafetin, ed è salina;
par pan di grano, ed è [pan] di saggina;
par una tor[r]e, ed è un[o] vil balco;
ed è un nibbio, e par un[o] girfalco;
e pare un gal[l]o, ed è una gal[l]ina.
Sonet[t]o mio, vat[t]ene a Fiorenza,
dove vedrai le don[n]e e le donzelle:
di' che 'l so fat[to] è solo di parvenza.
Ed eo per me ne conterò novelle
al bon re Carlo conte de Provenza,
e per 'sto modo i fregiar6 la pel[l]e.
IX
Dante Allaghier, Cecco, tu' serv' amico,
si raccomand' a tte com' a segnore;
e sì tti prego per lo dio d'Amore,
il qual è stat' un tu' signor antico,
che mmi perdoni s'i' spiacer ti dico,
ché mmi dà sicurtà 'l tu' gentil cuore:
quel ch'i' vol dire è di questo tenore,
ch'al tu' sonetto in parte contradico.
Ch'al meo parer nell'una muta dice
che non intendi su' sottil parlare,
di que' che vide la tua Beatrice;
e puoi hai detto a le tue donne care
che be llo 'ntendi: e dunque contradice
a ssé medesmo questo tu' trovare.
X
Dante Alleghier, s'i' so' buon begolardo,
tu me ne tien' ben la lancia a le reni;
s'i' desno con altrui, e tu vi ceni;
s'io mordo 'l grasso. e tu vi sughi el lardo;
s'io cimo 'l panno, e tu vi freghi el cardo;
s'io so' discorso, e tu poco t'afreni;
s'io gentileggio, e tu misèr t'aveni;
s'io so' fatto romano, e tu lombardo.
Si che, laudato Idio, rimproverare
poco può l'uno a l'altro di noi due:
sventura o poco senno ce'l fa fare.
E se di tal materia vo' dir piùe,
Dante, risponde, ch'i' t'avrò a stancare,
ch'i' son lo pugnerone, e tu se' 'l bue
Pier Paolo Pasolini - 1922-1975

Il canto popolare
Improvviso il mille novecento
cinquanta due passa sull'Italia:
solo il popolo ne ha un sentimento
vero: mai tolto al tempo, non l'abbaglia
la modernità, benché sempre il più
moderno sia esso, il popolo, spanto
in borghi, in rioni, con gioventù
sempre nuove - nuove al vecchio canto -
a ripetere ingenuo quello che fu.
Scotta il primo sole dolce dell'anno
sopra i portici delle cittadine
di provincia, sui paesi che sanno
ancora di nevi, sulle appenniniche
greggi: nelle vetrine dei capoluoghi
i nuovi colori delle tele, i nuovi
vestiti come in limpidi roghi
dicono quanto oggi si rinnovi
il mondo, che diverse gioie sfoghi...
Ah, noi che viviamo in una sola
generazione ogni generazione
vissuta qui, in queste terre ora
umiliate, non abbiamo nozione
vera di chi è partecipe alla storia
solo per orale, magica esperienza;
e vive puro, non oltre la memoria
della generazione in cui presenza
della vita è la sua vita perentoria.
Nella vita che è vita perché assunta
nella nostra ragione e costruita
per il nostro passaggio - e ora giunta
a essere altra, oltre il nostro accanito
difenderla - aspetta - cantando supino,
accampato nei nostri quartieri
a lui sconosciuti, e pronto fino
dalle più fresche e inanimate ère -
il popolo: muta in lui l'uomo il destino.
E se ci rivolgiamo a quel passato
ch'è nostro privilegio, altre fiumane
di popolo ecco cantare: recuperato
è il nostro moto fin dalle cristiane
origini, ma resta indietro, immobile,
quel canto. Si ripete uguale.
Nelle sere non più torce ma globi
di luce, e la periferia non pare
altra, non altri i ragazzi nuovi...
Tra gli orti cupi, al pigro solicello
Adalbertos komis kurtis!, i ragazzini
d'Ivrea gridano, e pei valloncelli
di Toscana, con strilli di rondinini:
Hor atorno fratt Helya! La santa
violenza sui rozzi cuori il clero
calca, rozzo, e li asserva a un'infanzia
feroce nel feudo provinciale l'Impero
da Iddio imposto: e il popolo canta.
Un grande concerto di scalpelli
sul Campidoglio, sul nuovo Appennino,
sui Comuni sbiancati dalle Alpi,
suona, giganteggiando il travertino
nel nuovo spazio in cui s'affranca
l'Uomo: e il manovale Dov'andastà
jersera... ripete con l'anima spanta
nel suo gotico mondo. Il mondo schiavitù
resta nel popolo. E il popolo canta.
Apprende il borghese nascente lo Ça ira,
e trepidi nel vento napoleonico,
all'Inno dell'Albero della Libertà,
tremano i nuovi colori delle nazioni.
Ma, cane affamato, difende il bracciante
i suoi padroni, ne canta la ferocia,
Guagliune 'e mala vita! in branchi
feroci. La libertà non ha voce
per il popolo cane. E il popolo canta.
Ragazzo del popolo che canti,
qui a Rebibbia sulla misera riva
dell'Aniene la nuova canzonetta, vanti
è vero, cantando, l'antica, la festiva
leggerezza dei semplici. Ma quale
dura certezza tu sollevi insieme
d'imminente riscossa, in mezzo a ignari
tuguri e grattacieli, allegro seme
in cuore al triste mondo popolare.
Nella tua incoscienza è la coscienza
che in te la storia vuole, questa storia
il cui Uomo non ha più che la violenza
delle memorie, non la libera memoria...
E ormai, forse, altra scelta non ha
che dare alla sua ansia di giustizia
la forza della tua felicità,
e alla luce di un tempo che inizia
la luce di chi è ciò che non sa.
1952-53
Verso le Terme di Caracalla
Vanno verso le Terme di Caracalla
giovani amici, a cavalcioni
di Rumi o Ducati, con maschile
pudore e maschile impudicizia,
nelle pieghe calde dei calzoni
nascondendo indifferenti, o scoprendo,
il segreto delle loro erezioni...
Con la testa ondulata, il giovanile
colore dei maglioni, essi fendono
la notte, in un carosello
sconclusionato, invadono la notte,
splendidi padroni della notte...
Va verso le Terme di Caracalla,
eretto il busto, come sulle natie
chine appenniniche, fra tratturi
che sanno di bestia secolare e pie
ceneri di berberi paesi - già impuro
sotto il gaglioffo basco impolverato,
e le mani in saccoccia - il pastore
migrato
undicenne, e ora qui, malandrino e
giulivo
nel romano riso, caldo ancora
di salvia rossa, di fico e d'ulivo...
Va verso le Terme di Caracalla,
il vecchio padre di famiglia, disoccupato,
che il feroce Frascati ha ridotto
a una bestia cretina, a un beato,
con nello chassì i ferrivecchi
del suo corpo scassato, a pezzi,
rantolanti: i panni, un sacco,
che contiene una schiena un po' gobba,
due cosce certo piene di croste,
i calzonacci che gli svolazzano sotto
le saccocce della giacca pese
di lordi cartocci. La faccia
ride: sotto le ganasce, gli ossi
masticano parole, scrocchiando:
parla da solo, poi si ferma,
e arrotola il vecchio mozzicone,
carcassa dove tutta la giovinezza,
resta, in fiore, come un focaraccio
dentro una còfana o un catino:
non muore chi non è mai nato.
Vanno verso le Terme di Caracalla
Sesso, consolazione della miseria!
Sesso, consolazione della miseria!
La puttana è una regina, il suo trono
è un rudere, la sua terra un pezzo
di merdoso prato, il suo scettro
una borsetta di vernice rossa:
abbaia nella notte, sporca e feroce
come un'antica madre: difende
il suo possesso e la sua vita.
I magnaccia, attorno, a frotte,
gonfi e sbattuti, coi loro baffi
brindisi o slavi, sono
capi, reggenti: combinano
nel buio, i loro affari di cento lire,
ammiccando in silenzio, scambiandosi
parole d'ordine: il mondo, escluso, tace
intorno a loro, che se ne sono esclusi,
silenziose carogne di rapaci.
Ma nei rifiuti del mondo, nasce
un nuovo mondo: nascono leggi nuove
dove non c'è più legge; nasce un nuovo
onore dove onore è il disonore...
Nascono potenze e nobiltà,
feroci, nei mucchi di tuguri,
nei luoghi sconfinati dove credi
che la città finisca, e dove invece
ricomincia, nemica, ricomincia
per migliaia di volte, con ponti
e labirinti, cantieri e sterri,
dietro mareggiate di grattacieli,
che coprono interi orizzonti.
Nella facilità dell'amore
il miserabile si sente uomo:
fonda la fiducia nella vita, fino
a disprezzare chi ha altra vita.
I figli si gettano all'avventura
sicuri d'essere in un mondo
che di loro, del loro sesso, ha paura.
La loro pietà è nell'essere spietati,
la loro forza nella leggerezza,
la loro speranza nel non avere speranza.
Il desiderio di ricchezza del sottoproletariato romano
Li osservo, questi uomini, educati
ad altra vita che la mia: frutti
d'una storia tanto diversa, e ritrovati,
quasi fratelli, qui, nell'ultima forma
storica di Roma. Li osservo: in tutti
c'è come l'aria d'un buttero che dorma
armato di coltello: nei loro succhi
vitali, è disteso un tenebrore intenso,
la papale itterizia del Belli,
non porpora, ma spento peperino,
bilioso cotto. La biancheria, sotto,
fine e sporca; nell'occhio, l'ironia
che trapela il suo umido, rosso,
indecente bruciore. La sera li espone
quasi in romitori, in riserve
fatte di vicoli, muretti, androni
e finestrelle perse nel silenzio.
È certo la prima delle loro passioni
il desiderio di ricchezza: sordido
come le loro membra non lavate,
nascosto, e insieme scoperto,
privo di ogni pudore: come senza pudore
è il rapace che svolazza pregustando
chiotto il boccone, o il lupo, o il ragno;
essi bramano i soldi come zingari,
mercenari, puttane: si lagnano
se non ce n'hanno, usano lusinghe
abbiette per ottenerli, si gloriano
plautinamente se ne hanno le saccocce
piene.
Se lavorano - lavoro di mafiosi
macellari,
ferini lucidatori, invertiti commessi,
tranvieri incarogniti, tisici ambulanti,
manovali buoni come cani - avviene
che abbiano ugualmente un'aria di ladri:
troppa avita furberia in quelle vene...
Sono usciti dal ventre delle loro madri
a ritrovarsi in marciapiedi o in prati
preistorici, e iscritti in un'anagrafe
che da ogni storia li vuole ignorati...
Il loro desiderio di ricchezza
è, così, banditesco, aristocratico.
Simile al mio. Ognuno pensa a sé,
a vincere l'angosciosa scommessa,
a dirsi: "È fatta," con un ghigno di re...
La nostra speranza è ugualmente
ossessa:
estetizzante, in me, in essi anarchica.
Al raffinato e al sottoproletariato spetta
la stessa ordinazione gerarchica
dei sentimenti: entrambi fuori dalla
storia,
in un mondo che non ha altri varchi
che verso il sesso e il cuore,
altra profondità che nei sensi.
In cui la gioia è gioia, il dolore dolore.
in Nuovi epigrammi (1958-59)

Alla bandiera rossa
Per chi conosce solo il tuo colore,
bandiera rossa,
tu devi realmente esistere, perché lui
esista:
chi era coperto di croste è coperto di
piaghe,
il bracciante diventa mendicante,
il napoletano calabrese, il calabrese
africano,
l'analfabeta una bufala o un cane.
Chi conosceva appena il tuo colore,
bandiera rossa,
sta per non conoscerti più, neanche coi
sensi:
tu che già vanti tante glorie borghesi e
operaie,
ridiventa straccio, e il più povero ti
sventoli.
in Poesie incivili (aprile 1960)
Frammento alla morte
Vengo da te e torno a te,
sentimento nato con la luce, col caldo,
battezzato quando il vagito era gioia,
riconosciuto in Pier Paolo
all'origine di una smaniosa epopea:
ho camminato alla luce della storia,
ma, sempre, il mio essere fu eroico,
sotto il tuo dominio, intimo pensiero.
Si coagulava nella tua scia di luce
nelle atroci sfiducie
della tua fiamma, ogni atto vero
del mondo, di quella
storia: e in essa si verificava intero,
vi perdeva la vita per riaverla:
e la vita era reale solo se bella...
La furia della confessione,
prima, poi la furia della chiarezza:
era da te che nasceva, ipocrita, oscuro
sentimento! E adesso,
accusino pure ogni mia passione,
m'infanghino, mi dicano informe, im
puro
ossesso, dilettante, spergiuro:
tu mi isoli, mi dai la certezza della vita:
sono nel rogo, gioco la carta del fuoco,
e vinco, questo mio poco,
immenso bene, vinco quest'infinita,
misera mia pietà
che mi rende anche la giusta ira amica:
posso farlo, perché ti ho troppo patita!
Torno a te, come torna
un emigrato al suo paese e lo riscopre:
ho fatto fortuna (nell'intelletto)
e sono felice, proprio
com'ero un tempo, destituito di norma.
Una nera rabbia di poesia nel petto.
Una pazza vecchiaia di giovinetto.
Una volta la tua gioia era confusa
con il terrore, è vero, e ora
quasi con altra gioia,
livida, arida: la mia passione delusa.
Mi fai ora davvero paura,
perché mi sei davvero vicina, inclusa
nel mio stato di rabbia, di oscura
fame, di ansia quasi di nuova creatura.
Sono sano, come vuoi tu,
la nevrosi mi ramifica accanto,
l'esaurimento mi inaridisce, ma
non mi ha: al mio fianco
ride l'ultima luce di gioventù.
Ho avuto tutto quello che volevo,
ormai:
sono anzi andato anche più in là
di certe speranze del mondo: svuotato,
eccoti lì, dentro di me, che empi
il mio tempo e i tempi.
Sono stato razionale e sono stato
irrazionale: fino in fondo.
E ora... ah, il deserto assordato
dal vento, lo stupendo e immondo
sole dell'Africa che illumina il mondo.
Africa! Unica mia
alternativa
Ballata delle madri
Mi domando che madri avete avuto.
Se ora vi vedessero al lavoro
in un mondo a loro sconosciuto,
presi in un giro mai compiuto
d'esperienze così diverse dalle loro,
che sguardo avrebbero negli occhi?
Se fossero lì, mentre voi scrivete
il vostro pezzo, conformisti e barocchi,
o lo passate, a redattori rotti
a ogni compromesso, capirebbero chi siete?
Madri vili, con nel viso il timore
antico, quello che come un male
deforma i lineamenti in un biancore
che li annebbia, li allontana dal cuore,
li chiude nel vecchio rifiuto morale.
Madri vili, poverine, preoccupate
che i figli conoscano la viltà
per chiedere un posto, per essere pratici,
per non offendere anime privilegiate,
per difendersi da ogni pietà.
Madri mediocri, che hanno imparato
con umiltà di bambine, di noi,
un unico, nudo significato,
con anime in cui il mondo è dannato
a non dare né dolore né gioia.
Madri mediocri, che non hanno avuto
per voi mai una parola d'amore,
se non d'un amore sordidamente muto
di bestia, e in esso v'hanno cresciuto,
impotenti ai reali richiami del cuore.
Madri servili, abituate da secoli
a chinare senza amore la testa,
a trasmettere al loro feto
l'antico, vergognoso segreto
d'accontentarsi dei resti della festa.
Madri servili, che vi hanno insegnato
come il servo può essere felice
odiando chi è, come lui, legato,
come può essere, tradendo, beato,
e sicuro, facendo ciò che non dice.
Madri feroci, intente a difendere
quel poco che, borghesi, possiedono,
la normalità e lo stipendio,
quasi con rabbia di chi si vendichi
o sia stretto da un assurdo assedio.
Madri feroci, che vi hanno detto:
Sopravvivete! Pensate a voi!
Non provate mai pietà o rispetto
per nessuno, covate nel petto
la vostra integrità di avvoltoi!
Ecco, vili, mediocri, servi,
feroci, le vostre povere madri!
Che non hanno vergogna a sapervi
- nel vostro odio - addirittura superbi,
se non è questa che una valle di lacrime.
E' così che vi appartiene questo mondo:
fatti fratelli nelle opposte passioni,
o le patrie nemiche, dal rifiuto profondo
a essere diversi: a rispondere
del selvaggio dolore di esser uomini.
Supplica a mia madre
E' difficile dire con parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.
Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d'ogni altro amore.
Per questo devo dirti ciò ch'è orrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.
Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.
E non voglio esser solo. Ho un'infinita fame
d'amore, dell'amore di corpi senza anima.
Perché l'anima è in te, sei tu, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:
ho passato l'infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.
Era l'unico modo per sentire la vita,
l'unica tinta, l'unica forma: ora è finita.
Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.
Ti supplico, ah, ti supplico: non voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile…
L'alba meridionale
II
Torno, ritrovo il fenomeno della fuga
del capitale, l'epifenomeno (infimo)
dell'avanguardia. La polizia tributaria
(quasi accertamento filosofico
sugli incartamenti di un poeta)
fruga in quel fatto privato che sono i soldi,
contaminati da carità, dolenti
di inspiegabili consunzioni, e pieni
di senso di colpa, come il corpo da ragazzi:
però con mia gongolante leggerezza perché qua,
non c'è da accertare nulla, se non la mia ingenuità.
Torno, e trovo milioni di uomini occupati
soltanto a vivere come barbari discesi
da poco su una terra felice, estranei
ad essa, e suoi possessori. Così nella vigilia
della Preistoria che a tutto ciò darà senso,
riprendo a Roma le mie abitudini
di bestia ferita, che guarda negli occhi,
godendo del morire, i suoi feritori…
Alla mia nazione
Non popolo arabo, non popolo balcanico, non popolo antico
ma nazione vivente, ma nazione europea:
e cosa sei? Terra di infanti, affamati, corrotti,
governanti impiegati di agrari, prefetti codini,
avvocatucci unti di brillantina e i piedi sporchi,
funzionari liberali carogne come gli zii bigotti,
una caserma, un seminario, una spiaggia libera, un casino!
Milioni di piccoli borghesi come milioni di porci
pascolano sospingendosi sotto gli illesi palazzotti,
tra case coloniali scrostate ormai come chiese.
Proprio perché tu sei esistita, ora non esisti,
proprio perché fosti cosciente, sei incosciente.
E solo perché sei cattolica, non puoi pensare
che il tuo male è tutto male: colpa di ogni male.
Sprofonda in questo tuo bel mare, libera il mondo.
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