Um beijo suave na nuca adormecida,
um olhar sonolento de indolente ternura
um «Agora dorme, meu Bem»
Já, agora e sempre!
Amén
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, março 15
domingo, fevereiro 18
O MEU BLOG
Escarros, devaneios,
gozos, delíquios,
transpirações e inspirações,
flexões e rodopios,
cabriolas, piruetas,
homenagens e influências,
confissões e disparates,
asneiradas clericais,
herméticas patacoadas,
elementos de percurso,
marcos de uma viagem,
balizas de uma vida
na dor e no prazer,
no casto e no foder,
no amada e no amante,
sedentário ou errante,
universo flutuante,
sombra de véu delicada
no dedilhar de um corpo
como com a puta da vida,
sonho de ave ferida
dentro da árvore caída
que voar não conseguia,
espécie de verme lombriga
que serpente almeja ser,
e que escreve por saber
que o que aqui ides ler
mais não é do que
escarros, devaneios,
gozos, delíquios,
transpirações e inspirações,
flexões e rodopios,
cabriolas, piruetas,
homenagens e influências,
confissões e disparates,
asneiradas clericais,
herméticas patacoadas,
elementos de percurso,
marcos de uma viagem,
balizas de uma vida
na dor e no prazer,
no casto e no foder,
no amada e no amante,
sedentário ou errante,
universo flutuante,
sombra de véu delicada
no dedilhar de um corpo
como com a puta da vida,
sonho de ave ferida
dentro da árvore caída
que voar não conseguia,
espécie de verme lombriga
que serpente almeja ser,
e que escreve por saber
que ninguém o irá ler!
Ricardo Cerveira de Abreu Castelo Branco
also known as
O refúgio dos Cães
e
Willy The Pimp
Estefânia, 2007-02-18, 19h50m
gozos, delíquios,
transpirações e inspirações,
flexões e rodopios,
cabriolas, piruetas,
homenagens e influências,
confissões e disparates,
asneiradas clericais,
herméticas patacoadas,
elementos de percurso,
marcos de uma viagem,
balizas de uma vida
na dor e no prazer,
no casto e no foder,
no amada e no amante,
sedentário ou errante,
universo flutuante,
sombra de véu delicada
no dedilhar de um corpo
como com a puta da vida,
sonho de ave ferida
dentro da árvore caída
que voar não conseguia,
espécie de verme lombriga
que serpente almeja ser,
e que escreve por saber
que o que aqui ides ler
mais não é do que
escarros, devaneios,
gozos, delíquios,
transpirações e inspirações,
flexões e rodopios,
cabriolas, piruetas,
homenagens e influências,
confissões e disparates,
asneiradas clericais,
herméticas patacoadas,
elementos de percurso,
marcos de uma viagem,
balizas de uma vida
na dor e no prazer,
no casto e no foder,
no amada e no amante,
sedentário ou errante,
universo flutuante,
sombra de véu delicada
no dedilhar de um corpo
como com a puta da vida,
sonho de ave ferida
dentro da árvore caída
que voar não conseguia,
espécie de verme lombriga
que serpente almeja ser,
e que escreve por saber
que ninguém o irá ler!
Ricardo Cerveira de Abreu Castelo Branco
also known as
O refúgio dos Cães
e
Willy The Pimp
Estefânia, 2007-02-18, 19h50m
Labels:
intimidades,
Poesia,
Poesia portuguesa,
século XXI
sexta-feira, fevereiro 16
Fernando Guilherme Azevedo, poeta maldito dos nossos tempos, destruidor de mentalidades burguesas, louco, bêbedo e grande amigo

Pois é menino, no meio dos grandes e dos meu alinhavar de palavras, chegou agora a tua vez.
Não vou espetar aqui a tua carantonha uma vez que as pessoas se iam assustar e deixavam de te comprar os livros e lá se ia o dinheirito para os copos e para aquele morder as consciências das merdosas anafadas, dos maridos mais ou menos cornudos, dos imbecis mais ou menos esclerosados que, tantas vezes, nas nossas conversas, entre um copo teu e um café meu, longamente, te vi exercitar.

E eras ferino e corrosivo. Zurzias os fachos e os comunas, as putas e as beatas, os intelectuais de banco de café como os psiquiatras. Eram bons esses momentos passados no café do bairro. E cada vez se tornaram mais raros, agora que mudei de casa e nos vemos menos.

Mas continuo a ler-te e muitas das coisas que disseste, entre os vapores do alcool ou para além da poalha mental dos comprimidos, continuam a ser radicalmente verdadeiras, genuinamente puras e depravadas, torcidas como as raízes da oliveira, etéreas e caprichosas como o voar da vespa, sinuosas e pervertidas num grande coração de anarca louco.

Por isso sou teu amigo. Por seres tão diabolicamente genial quando não bebes e por isso te parto a carola, aqui e sempre, para não beberes. E por saber que a nossa amizade vai continuar para além de todos os teus copos e de todas as minhas partidelas de carola. De qualquer forma, menino, eu não vim para aqui para te lixar a ínclita cornadura mas para te dizer
Já entraste para a minha Academia Íntima de Afectos!
e ,posto isto, falar um pouco da tua obra e dar-te a conhecer se é que alguem vai ler isto para além de nós os dois.
O Fernandinho, residente em São Domingos de Benfica, não apresenta, à semelhança de tantas glórias do mercado livreiro, uma espécie de biografia na bandeira da capa dos livros pelo que, dentro da minha ignorância, vou ter de inventar.
Assim fica mais fixe.
Acredita menino.

Nasceste em data tão remota que o pudor já cobre com um véu, cresceste, multiplicaste-te, ensandeceste, criaste, viveste, vegetaste, criaste, criaste, crias...
Acho que pelo aspecto biográfico despachei a coisa com uma síntese magistral. Agora vamos à bibliografia.

Para além de colaborações no suplemento DN JOVEM do Diário de Notícias e no Jornal de Letras, participaste na Poiésis III (Março de 2000), na coletânea de contos Conta-me Estórias (Abrilde 2000) e na de poesia Incomensurável (Maio de 2000), todos publicados pela MINERVA. Depois veio a ligação à Universitária Editora e com ela o Avulso Esplendor de uma Luz Habitada (2000) e Crónica de um político brilhante: (ou a menopausa dos concordes), já em 2005. Pelo meio ficava o posfácio a Ignota Fauna do Paulo Dinis e Abreu (2005).
E agora, como não tenho grande jeito para a função e caio na lamechice, só me resta acrescentar, citando Paulo Dinis e Abreu e Michel de Montaigne:
e passar à poesia que é coisa mais séria que este meu paleio:
Sou um estrangeiro que passa por mim.
Alheio, disperso.
A transfiguração da idade
Aclara-me, mas névoa.)
A imprecisão atómica do mundo
Sempre nos conduz a uma inabitação
Das coisas que nos entram pelo olhar
Como chama trémula a morrer na calçada.
As pedras.
As imemoriais pedras dos monumentos
Gritam, chamam por nós.
Como se o último, verdadeiro segredo
Fosse retornarmos às estátuas que fomos,
Divindades latentes nos passos que cruzamos
Nos passos uns dos outros.
Porque os caminhos são eternos,
E as fontes sempre jorrarão,
Como crianças leitosas a alcançar-nos
Uma outra forma do mundo
Que finalmente proporcionará repouso,
Estrelas sonolentas no húmus dos olhos.
_____________
Ser solitário é um estado de alma
Que perpetua lençois brancos,
O branco da castidade.
O homem solitário tem no seu olhar
A virgindade com que adora os outros homens,
Com que beija impoluto a Mulher-Mãe.
Ser solitário não é necessáriamente sofrimento,
Porque há encontro dentro de nós,
Na mais íntima construção da fortaleza
Que vence o tremor de flores delicadas
Que, qual verme, por vezes nos assalta de incredulidade.
Ser solitário é sobretudo estar predisposto,
Preparado para não mais o ser,
E de novo voltar a si próprio e à auto-companhia
Quando os ventos dos rostos e dos mundos
Devolvem a acidez onde só a ermida dela nos protege...
_________________________
O último telejornal
Germina opiniões especializadíssimas!
Todos comentam as últimas informações
Com uma sabedoria
Que quase são ministros filósofos.
Relembram-se treinos militares
E emborca-se imperiais.
Eu, querendo sossego,
Não mais que verdadeiro, pacífico sossego,
Oiço tudo isto
Como alguém que vem de muito longe.
Tento a todo o custo não escutar,
Mas eles teimam, eles são sábios
Assim, troco forçosamente
As memórias daquela que amo
por uma quase-morte do sentir
Genuinamente.
Oh, tenho tanta pena...
Que esta gente
não se evapore ou emigre,
Ou prepare a cama
Para nunca mais acordar!

e quem quiser saber mais do cromo que és que te vá ler ao teu blog:
http://fernandoguilhermeazevedo-hugoflavio.blogspot.com/
um abraço menino
quarta-feira, fevereiro 14
Alfred de MUSSET - 1810-1857

Nas noites frias de Bordeaux lia-te e aquecia a alma:
Ballade à la lune
C'était, dans la nuit brune,
Sur le clocher jauni,
La lune
Comme un point sur un i.
Lune, quel esprit sombre
Promène au bout d'un fil,
Dans l'ombre,
Ta face et ton profil ?
Es-tu l'oeil du ciel borgne ?
Quel chérubin cafard
Nous lorgne
Sous ton masque blafard ?
N'es-tu rien qu'une boule,
Qu'un grand faucheux bien gras
Qui roule
Sans pattes et sans bras ?
Es-tu, je t'en soupçonne,
Le vieux cadran de fer
Qui sonne
L'heure aux damnés d'enfer ?
Sur ton front qui voyage.
Ce soir ont-ils compté
Quel âge
A leur éternité ?
Est-ce un ver qui te ronge
Quand ton disque noirci
S'allonge
En croissant rétréci ?
Qui t'avait éborgnée,
L'autre nuit ? T'étais-tu
Cognée
A quelque arbre pointu ?
Car tu vins, pâle et morne
Coller sur mes carreaux
Ta corne
À travers les barreaux.
Va, lune moribonde,
Le beau corps de Phébé
La blonde
Dans la mer est tombé.
Tu n'en es que la face
Et déjà, tout ridé,
S'efface
Ton front dépossédé.
Rends-nous la chasseresse,
Blanche, au sein virginal,
Qui presse
Quelque cerf matinal !
Oh ! sous le vert platane
Sous les frais coudriers,
Diane,
Et ses grands lévriers !
Le chevreau noir qui doute,
Pendu sur un rocher,
L'écoute,
L'écoute s'approcher.
Et, suivant leurs curées,
Par les vaux, par les blés,
Les prées,
Ses chiens s'en sont allés.
Oh ! le soir, dans la brise,
Phoebé, soeur d'Apollo,
Surprise
A l'ombre, un pied dans l'eau !
Phoebé qui, la nuit close,
Aux lèvres d'un berger
Se pose,
Comme un oiseau léger.
Lune, en notre mémoire,
De tes belles amours
L'histoire
T'embellira toujours.
Et toujours rajeunie,
Tu seras du passant
Bénie,
Pleine lune ou croissant.
T'aimera le vieux pâtre,
Seul, tandis qu'à ton front
D'albâtre
Ses dogues aboieront.
T'aimera le pilote
Dans son grand bâtiment,
Qui flotte,
Sous le clair firmament !
Et la fillette preste
Qui passe le buisson,
Pied leste,
En chantant sa chanson.
Comme un ours à la chaîne,
Toujours sous tes yeux bleus
Se traîne
L'océan montueux.
Et qu'il vente ou qu'il neige
Moi-même, chaque soir,
Que fais-je,
Venant ici m'asseoir ?
Je viens voir à la brune,
Sur le clocher jauni,
La lune
Comme un point sur un i.
Peut-être quand déchante
Quelque pauvre mari,
Méchante,
De loin tu lui souris.
Dans sa douleur amère,
Quand au gendre béni
La mère
Livre la clef du nid,
Le pied dans sa pantoufle,
Voilà l'époux tout prêt
Qui souffle
Le bougeoir indiscret.
Au pudique hyménée
La vierge qui se croit
Menée,
Grelotte en son lit froid,
Mais monsieur tout en flamme
Commence à rudoyer
Madame,
Qui commence à crier.
" Ouf ! dit-il, je travaille,
Ma bonne, et ne fais rien
Qui vaille;
Tu ne te tiens pas bien. "
Et vite il se dépêche.
Mais quel démon caché
L'empêche
De commettre un péché ?
" Ah ! dit-il, prenons garde.
Quel témoin curieux
Regarde
Avec ces deux grands yeux ? "
Et c'est, dans la nuit brune,
Sur son clocher jauni,
La lune
Comme un point sur un i.
in Premières poésies
Impromptu
(En réponse à la question : Qu'est-ce que la Poésie ? )
Chasser tout souvenir et fixer sa pensée,
Sur un bel axe d'or la tenir balancée,
Incertaine, inquiète, immobile pourtant,
Peut-être éterniser le rêve d'un instant ;
Aimer le vrai, le beau, chercher leur harmonie ;
Écouter dans son coeur l'écho de son génie ;
Chanter, rire, pleurer, seul, sans but, au hasard ;
D'un sourire, d'un mot, d'un soupir, d'un regard
Faire un travail exquis, plein de crainte et de charme
Faire une perle d'une larme :
Du poète ici-bas voilà la passion,
Voilà son bien, sa vie et son ambition.
Le rideau de ma voisine
Imité de Goethe.
Le rideau de ma voisine
Se soulève lentement.
Elle va, je l'imagine,
Prendre l'air un moment.
On entr'ouvre la fenêtre :
Je sens mon coeur palpiter.
Elle veut savoir peut-être
Si je suis à guetter.
Mais, hélas ! ce n'est qu'un rêve ;
Ma voisine aime un lourdaud,
Et c'est le vent qui soulève
Le coin de son rideau.
Par un mauvais temps
Elle a mis, depuis que je l'aime
(Bien longtemps, peut-être toujours),
Bien des robes, jamais la même ;
Palmire a dû compter les jours.
Mais, quand vous êtes revenue,
Votre bras léger sur le mien,
Il faisait, dans cette avenue,
Un froid de loup, un temps de chien.
Vous m'aimiez un peu, mon bel ange,
Et, tandis que vous bavardiez,
Dans cette pluie et cette fange
Se mouillaient vos chers petits pieds.
Songeait-elle, ta jambe fine,
Quand tu parlais de nos amours,
Qu'elle allait porter sous l'hermine
Le satin, l'or et le velours ?
Si jamais mon coeur désavoue
Ce qu'il sentit en ce moment,
Puisse à mon front sauter la boue
Où tu marchais si bravement !
in Poésies nouvelles
Cecco Angiolieri - 1260-1311(?)

SONETTI
I
La mia malinconia è tanta e tale,
ch'i' non discredo che, s'egli 'l sapesse
un che mi fosse nemico mortale,
che di me di pieta [de] non piangesse.
Quella, per cu' m'aven, poco ne cale:
ché mmi potrebbe, sed ella volesse,
guarir 'n un punto di tutto 'l mie male,
sed ella pur " I' t'odio " mi dicesse.
Ma quest' è la risposta c'ho da llei:
ched ella no mmi vòl né mal né bene,
e ched i' vad' a ffar li fatti mei,
ch'ella non cura s'i' ho gioi' e pene,
men ch'una paglia che lle va tra' piei.
Mal grado n'abbi' Amor, ch'a lle' mi diène.
II
S'e' si potesse morir di dolore,
molti son vivi che sserebber morti;
i' son l'un desso, sed e' no me 'n porti
'n aním' e carn' il Lucifer maggiore:
avegna ch'i' ne vo co la peggiore,
ché ne lo 'nferno non son cosi forti
le pene e [li] tormenti e li sconforti
com' un de' miei, qualunque è l[o] minore.
Ond' io esser non nato ben vorria,
od esser cosa che nnon si sentisse,
poi ch'ì' non trovo 'n me modo né via:
se non è 'n tanto che sse si compisse
per aventura omai la profezia,
che ll'uom vuol dir, ch'Anticrísto venisse.
III
" Becchin' amor! " " Che vuo', falso tradito? "
" Che mmi perdoni ". " [Tu] non ne se' degno ".
" Merzé, per Deo! " " Tu vien' molto gecchito ".
" E verrò sempre ". " Che saràmi pegno? "
" La buona fé ". " Tu nne se' mal fornito ".
" No inver' di te ". " Non calmar, ch'i' ne vegno ".
" In che fallai? " " Tu ssa' ch'i' l'abbo udito ".
" Dimmel', amor ". " Va', che tti veng' un segno! "
" Vuol pur ch'i' muoia? " " Anzi mi par mìll' anni ".
" Tu non di' bene ". " Tu m'insegnerai ".
" Ed i' morrò ". " Omè, che ttu m'inganni! "
" Die te'l perdoni ". " E cché. non te ne vai? "
" Or potess'io! " " Tegnoti per li panni? "
" Tu tieni 'l cuore ". " E terrò co' tuo' guai ".
IV
Qualunque giorno non veggio 'l mi' amore,
la notte come serpe mi travolto,
e sì mmi giro, che paio un bigollo,
tanta è la pena che sente 'l meo core.
Parmi la notte ben cento mili' ore,
dicendo: " Dio, sarà mma' dì, vedròllo? ";
e tanto piango, che tutto m'immollo,
ch' alcuna cosa m'aleggia 'l dolore.
Ed i' ne son da llei cosi cangiato:
ché 'nn-una [che]d e' giungo 'n sua contrada,
sì mmi fa dir ch'i' vi son troppo stato,
e ched i' voli, si ttosto me'n vada,
però ch'ell' ha 'l sul amor a ttal donato,
che per un mille più di me li aggrada.
V
S'i' fosse fuoco, arderei 'l mondo;
s'i' fosse vento, lo tempestarei;
s'i' fosse acqua, i' l'annegherei;
s'i' fosse Dío, mandereil' en profondo;
s'i' fosse papa, allor serei giocondo,
ché tutti cristiani imbrigarei;
s'i' fosse 'mperator, ben lo farei:
a tutti tagliarei lo capo a tondo.
S'i' fosse morte, andarei a mi' padre;
s'i' fosse vita, non starei con lui:
similemente faria da mi' madre.
S'i' fosse Cecco, com' i' sono e fui, torrei le donne giovani e leggiadre:
le zop[p]e e vecchie lasserei altrui.
VI
Tre cose solamente m'ènno in grado,
le quali posso non ben ben fornire,
cioè la donna, la taverna e 'l dado:
queste mi fanno 'l cuor lieto sentire.
Ma sì mme le convene usar di rado,
ché la mie borsa mi mett' al mentire;
e quando mi sovien, tutto mi sbrado,
ch'i' perdo per moneta 'l mie disíre.
E dico: " Dato li sia d'una lancia! ",
ciò a mi' padre, che mmi tien sì magro,
che tornare' senza logro di Francia.
Ché fora a torli un dinar[o] più agro,
la man di Pasqua che ssi dà la mancia,
che far pigliar la gru ad un bozzagro.
VII
No si disperin que[lli] de lo 'nferno',
po' che n'è uscito un che vlera chiavato,
el quale è Cec[c]o, chlè cosi chiamato,
che vi credea stare in se[m]piterno.
Ma in tal[e] guisa è rivolto il quaderno,
che sempre viverò grolificato,
po' che messer Angiolieri è scoiato,
che m'afrig[g]ea d'estate e di verno.
Muovi, nuovo sonetto, e van[n]e a Cec[c]o,
a quel che giù dimora a la Badia:
digli che Fortar[rligo è mezzo sec[c]o;
che no si dia nul[l]la mani[n]conia,
ma di tal cibo imbe[c]chi lo suo bec[c]o,
ch'e' viverà più ch'Enòch e[d] Elia.
VIII
Lassar vo' lo trovare de Becchina
Dant[e] Alig[hi]eri, e dir del Mariscalco:
ch'e' par fìorin d'or, ed è d'oricalco;
par zuc[c]ar cafetin, ed è salina;
par pan di grano, ed è [pan] di saggina;
par una tor[r]e, ed è un[o] vil balco;
ed è un nibbio, e par un[o] girfalco;
e pare un gal[l]o, ed è una gal[l]ina.
Sonet[t]o mio, vat[t]ene a Fiorenza,
dove vedrai le don[n]e e le donzelle:
di' che 'l so fat[to] è solo di parvenza.
Ed eo per me ne conterò novelle
al bon re Carlo conte de Provenza,
e per 'sto modo i fregiar6 la pel[l]e.
IX
Dante Allaghier, Cecco, tu' serv' amico,
si raccomand' a tte com' a segnore;
e sì tti prego per lo dio d'Amore,
il qual è stat' un tu' signor antico,
che mmi perdoni s'i' spiacer ti dico,
ché mmi dà sicurtà 'l tu' gentil cuore:
quel ch'i' vol dire è di questo tenore,
ch'al tu' sonetto in parte contradico.
Ch'al meo parer nell'una muta dice
che non intendi su' sottil parlare,
di que' che vide la tua Beatrice;
e puoi hai detto a le tue donne care
che be llo 'ntendi: e dunque contradice
a ssé medesmo questo tu' trovare.
X
Dante Alleghier, s'i' so' buon begolardo,
tu me ne tien' ben la lancia a le reni;
s'i' desno con altrui, e tu vi ceni;
s'io mordo 'l grasso. e tu vi sughi el lardo;
s'io cimo 'l panno, e tu vi freghi el cardo;
s'io so' discorso, e tu poco t'afreni;
s'io gentileggio, e tu misèr t'aveni;
s'io so' fatto romano, e tu lombardo.
Si che, laudato Idio, rimproverare
poco può l'uno a l'altro di noi due:
sventura o poco senno ce'l fa fare.
E se di tal materia vo' dir piùe,
Dante, risponde, ch'i' t'avrò a stancare,
ch'i' son lo pugnerone, e tu se' 'l bue
Pier Paolo Pasolini - 1922-1975

Il canto popolare
Improvviso il mille novecento
cinquanta due passa sull'Italia:
solo il popolo ne ha un sentimento
vero: mai tolto al tempo, non l'abbaglia
la modernità, benché sempre il più
moderno sia esso, il popolo, spanto
in borghi, in rioni, con gioventù
sempre nuove - nuove al vecchio canto -
a ripetere ingenuo quello che fu.
Scotta il primo sole dolce dell'anno
sopra i portici delle cittadine
di provincia, sui paesi che sanno
ancora di nevi, sulle appenniniche
greggi: nelle vetrine dei capoluoghi
i nuovi colori delle tele, i nuovi
vestiti come in limpidi roghi
dicono quanto oggi si rinnovi
il mondo, che diverse gioie sfoghi...
Ah, noi che viviamo in una sola
generazione ogni generazione
vissuta qui, in queste terre ora
umiliate, non abbiamo nozione
vera di chi è partecipe alla storia
solo per orale, magica esperienza;
e vive puro, non oltre la memoria
della generazione in cui presenza
della vita è la sua vita perentoria.
Nella vita che è vita perché assunta
nella nostra ragione e costruita
per il nostro passaggio - e ora giunta
a essere altra, oltre il nostro accanito
difenderla - aspetta - cantando supino,
accampato nei nostri quartieri
a lui sconosciuti, e pronto fino
dalle più fresche e inanimate ère -
il popolo: muta in lui l'uomo il destino.
E se ci rivolgiamo a quel passato
ch'è nostro privilegio, altre fiumane
di popolo ecco cantare: recuperato
è il nostro moto fin dalle cristiane
origini, ma resta indietro, immobile,
quel canto. Si ripete uguale.
Nelle sere non più torce ma globi
di luce, e la periferia non pare
altra, non altri i ragazzi nuovi...
Tra gli orti cupi, al pigro solicello
Adalbertos komis kurtis!, i ragazzini
d'Ivrea gridano, e pei valloncelli
di Toscana, con strilli di rondinini:
Hor atorno fratt Helya! La santa
violenza sui rozzi cuori il clero
calca, rozzo, e li asserva a un'infanzia
feroce nel feudo provinciale l'Impero
da Iddio imposto: e il popolo canta.
Un grande concerto di scalpelli
sul Campidoglio, sul nuovo Appennino,
sui Comuni sbiancati dalle Alpi,
suona, giganteggiando il travertino
nel nuovo spazio in cui s'affranca
l'Uomo: e il manovale Dov'andastà
jersera... ripete con l'anima spanta
nel suo gotico mondo. Il mondo schiavitù
resta nel popolo. E il popolo canta.
Apprende il borghese nascente lo Ça ira,
e trepidi nel vento napoleonico,
all'Inno dell'Albero della Libertà,
tremano i nuovi colori delle nazioni.
Ma, cane affamato, difende il bracciante
i suoi padroni, ne canta la ferocia,
Guagliune 'e mala vita! in branchi
feroci. La libertà non ha voce
per il popolo cane. E il popolo canta.
Ragazzo del popolo che canti,
qui a Rebibbia sulla misera riva
dell'Aniene la nuova canzonetta, vanti
è vero, cantando, l'antica, la festiva
leggerezza dei semplici. Ma quale
dura certezza tu sollevi insieme
d'imminente riscossa, in mezzo a ignari
tuguri e grattacieli, allegro seme
in cuore al triste mondo popolare.
Nella tua incoscienza è la coscienza
che in te la storia vuole, questa storia
il cui Uomo non ha più che la violenza
delle memorie, non la libera memoria...
E ormai, forse, altra scelta non ha
che dare alla sua ansia di giustizia
la forza della tua felicità,
e alla luce di un tempo che inizia
la luce di chi è ciò che non sa.
1952-53
Verso le Terme di Caracalla
Vanno verso le Terme di Caracalla
giovani amici, a cavalcioni
di Rumi o Ducati, con maschile
pudore e maschile impudicizia,
nelle pieghe calde dei calzoni
nascondendo indifferenti, o scoprendo,
il segreto delle loro erezioni...
Con la testa ondulata, il giovanile
colore dei maglioni, essi fendono
la notte, in un carosello
sconclusionato, invadono la notte,
splendidi padroni della notte...
Va verso le Terme di Caracalla,
eretto il busto, come sulle natie
chine appenniniche, fra tratturi
che sanno di bestia secolare e pie
ceneri di berberi paesi - già impuro
sotto il gaglioffo basco impolverato,
e le mani in saccoccia - il pastore
migrato
undicenne, e ora qui, malandrino e
giulivo
nel romano riso, caldo ancora
di salvia rossa, di fico e d'ulivo...
Va verso le Terme di Caracalla,
il vecchio padre di famiglia, disoccupato,
che il feroce Frascati ha ridotto
a una bestia cretina, a un beato,
con nello chassì i ferrivecchi
del suo corpo scassato, a pezzi,
rantolanti: i panni, un sacco,
che contiene una schiena un po' gobba,
due cosce certo piene di croste,
i calzonacci che gli svolazzano sotto
le saccocce della giacca pese
di lordi cartocci. La faccia
ride: sotto le ganasce, gli ossi
masticano parole, scrocchiando:
parla da solo, poi si ferma,
e arrotola il vecchio mozzicone,
carcassa dove tutta la giovinezza,
resta, in fiore, come un focaraccio
dentro una còfana o un catino:
non muore chi non è mai nato.
Vanno verso le Terme di Caracalla
Sesso, consolazione della miseria!
Sesso, consolazione della miseria!
La puttana è una regina, il suo trono
è un rudere, la sua terra un pezzo
di merdoso prato, il suo scettro
una borsetta di vernice rossa:
abbaia nella notte, sporca e feroce
come un'antica madre: difende
il suo possesso e la sua vita.
I magnaccia, attorno, a frotte,
gonfi e sbattuti, coi loro baffi
brindisi o slavi, sono
capi, reggenti: combinano
nel buio, i loro affari di cento lire,
ammiccando in silenzio, scambiandosi
parole d'ordine: il mondo, escluso, tace
intorno a loro, che se ne sono esclusi,
silenziose carogne di rapaci.
Ma nei rifiuti del mondo, nasce
un nuovo mondo: nascono leggi nuove
dove non c'è più legge; nasce un nuovo
onore dove onore è il disonore...
Nascono potenze e nobiltà,
feroci, nei mucchi di tuguri,
nei luoghi sconfinati dove credi
che la città finisca, e dove invece
ricomincia, nemica, ricomincia
per migliaia di volte, con ponti
e labirinti, cantieri e sterri,
dietro mareggiate di grattacieli,
che coprono interi orizzonti.
Nella facilità dell'amore
il miserabile si sente uomo:
fonda la fiducia nella vita, fino
a disprezzare chi ha altra vita.
I figli si gettano all'avventura
sicuri d'essere in un mondo
che di loro, del loro sesso, ha paura.
La loro pietà è nell'essere spietati,
la loro forza nella leggerezza,
la loro speranza nel non avere speranza.
Il desiderio di ricchezza del sottoproletariato romano
Li osservo, questi uomini, educati
ad altra vita che la mia: frutti
d'una storia tanto diversa, e ritrovati,
quasi fratelli, qui, nell'ultima forma
storica di Roma. Li osservo: in tutti
c'è come l'aria d'un buttero che dorma
armato di coltello: nei loro succhi
vitali, è disteso un tenebrore intenso,
la papale itterizia del Belli,
non porpora, ma spento peperino,
bilioso cotto. La biancheria, sotto,
fine e sporca; nell'occhio, l'ironia
che trapela il suo umido, rosso,
indecente bruciore. La sera li espone
quasi in romitori, in riserve
fatte di vicoli, muretti, androni
e finestrelle perse nel silenzio.
È certo la prima delle loro passioni
il desiderio di ricchezza: sordido
come le loro membra non lavate,
nascosto, e insieme scoperto,
privo di ogni pudore: come senza pudore
è il rapace che svolazza pregustando
chiotto il boccone, o il lupo, o il ragno;
essi bramano i soldi come zingari,
mercenari, puttane: si lagnano
se non ce n'hanno, usano lusinghe
abbiette per ottenerli, si gloriano
plautinamente se ne hanno le saccocce
piene.
Se lavorano - lavoro di mafiosi
macellari,
ferini lucidatori, invertiti commessi,
tranvieri incarogniti, tisici ambulanti,
manovali buoni come cani - avviene
che abbiano ugualmente un'aria di ladri:
troppa avita furberia in quelle vene...
Sono usciti dal ventre delle loro madri
a ritrovarsi in marciapiedi o in prati
preistorici, e iscritti in un'anagrafe
che da ogni storia li vuole ignorati...
Il loro desiderio di ricchezza
è, così, banditesco, aristocratico.
Simile al mio. Ognuno pensa a sé,
a vincere l'angosciosa scommessa,
a dirsi: "È fatta," con un ghigno di re...
La nostra speranza è ugualmente
ossessa:
estetizzante, in me, in essi anarchica.
Al raffinato e al sottoproletariato spetta
la stessa ordinazione gerarchica
dei sentimenti: entrambi fuori dalla
storia,
in un mondo che non ha altri varchi
che verso il sesso e il cuore,
altra profondità che nei sensi.
In cui la gioia è gioia, il dolore dolore.
in Nuovi epigrammi (1958-59)

Alla bandiera rossa
Per chi conosce solo il tuo colore,
bandiera rossa,
tu devi realmente esistere, perché lui
esista:
chi era coperto di croste è coperto di
piaghe,
il bracciante diventa mendicante,
il napoletano calabrese, il calabrese
africano,
l'analfabeta una bufala o un cane.
Chi conosceva appena il tuo colore,
bandiera rossa,
sta per non conoscerti più, neanche coi
sensi:
tu che già vanti tante glorie borghesi e
operaie,
ridiventa straccio, e il più povero ti
sventoli.
in Poesie incivili (aprile 1960)
Frammento alla morte
Vengo da te e torno a te,
sentimento nato con la luce, col caldo,
battezzato quando il vagito era gioia,
riconosciuto in Pier Paolo
all'origine di una smaniosa epopea:
ho camminato alla luce della storia,
ma, sempre, il mio essere fu eroico,
sotto il tuo dominio, intimo pensiero.
Si coagulava nella tua scia di luce
nelle atroci sfiducie
della tua fiamma, ogni atto vero
del mondo, di quella
storia: e in essa si verificava intero,
vi perdeva la vita per riaverla:
e la vita era reale solo se bella...
La furia della confessione,
prima, poi la furia della chiarezza:
era da te che nasceva, ipocrita, oscuro
sentimento! E adesso,
accusino pure ogni mia passione,
m'infanghino, mi dicano informe, im
puro
ossesso, dilettante, spergiuro:
tu mi isoli, mi dai la certezza della vita:
sono nel rogo, gioco la carta del fuoco,
e vinco, questo mio poco,
immenso bene, vinco quest'infinita,
misera mia pietà
che mi rende anche la giusta ira amica:
posso farlo, perché ti ho troppo patita!
Torno a te, come torna
un emigrato al suo paese e lo riscopre:
ho fatto fortuna (nell'intelletto)
e sono felice, proprio
com'ero un tempo, destituito di norma.
Una nera rabbia di poesia nel petto.
Una pazza vecchiaia di giovinetto.
Una volta la tua gioia era confusa
con il terrore, è vero, e ora
quasi con altra gioia,
livida, arida: la mia passione delusa.
Mi fai ora davvero paura,
perché mi sei davvero vicina, inclusa
nel mio stato di rabbia, di oscura
fame, di ansia quasi di nuova creatura.
Sono sano, come vuoi tu,
la nevrosi mi ramifica accanto,
l'esaurimento mi inaridisce, ma
non mi ha: al mio fianco
ride l'ultima luce di gioventù.
Ho avuto tutto quello che volevo,
ormai:
sono anzi andato anche più in là
di certe speranze del mondo: svuotato,
eccoti lì, dentro di me, che empi
il mio tempo e i tempi.
Sono stato razionale e sono stato
irrazionale: fino in fondo.
E ora... ah, il deserto assordato
dal vento, lo stupendo e immondo
sole dell'Africa che illumina il mondo.
Africa! Unica mia
alternativa
Ballata delle madri
Mi domando che madri avete avuto.
Se ora vi vedessero al lavoro
in un mondo a loro sconosciuto,
presi in un giro mai compiuto
d'esperienze così diverse dalle loro,
che sguardo avrebbero negli occhi?
Se fossero lì, mentre voi scrivete
il vostro pezzo, conformisti e barocchi,
o lo passate, a redattori rotti
a ogni compromesso, capirebbero chi siete?
Madri vili, con nel viso il timore
antico, quello che come un male
deforma i lineamenti in un biancore
che li annebbia, li allontana dal cuore,
li chiude nel vecchio rifiuto morale.
Madri vili, poverine, preoccupate
che i figli conoscano la viltà
per chiedere un posto, per essere pratici,
per non offendere anime privilegiate,
per difendersi da ogni pietà.
Madri mediocri, che hanno imparato
con umiltà di bambine, di noi,
un unico, nudo significato,
con anime in cui il mondo è dannato
a non dare né dolore né gioia.
Madri mediocri, che non hanno avuto
per voi mai una parola d'amore,
se non d'un amore sordidamente muto
di bestia, e in esso v'hanno cresciuto,
impotenti ai reali richiami del cuore.
Madri servili, abituate da secoli
a chinare senza amore la testa,
a trasmettere al loro feto
l'antico, vergognoso segreto
d'accontentarsi dei resti della festa.
Madri servili, che vi hanno insegnato
come il servo può essere felice
odiando chi è, come lui, legato,
come può essere, tradendo, beato,
e sicuro, facendo ciò che non dice.
Madri feroci, intente a difendere
quel poco che, borghesi, possiedono,
la normalità e lo stipendio,
quasi con rabbia di chi si vendichi
o sia stretto da un assurdo assedio.
Madri feroci, che vi hanno detto:
Sopravvivete! Pensate a voi!
Non provate mai pietà o rispetto
per nessuno, covate nel petto
la vostra integrità di avvoltoi!
Ecco, vili, mediocri, servi,
feroci, le vostre povere madri!
Che non hanno vergogna a sapervi
- nel vostro odio - addirittura superbi,
se non è questa che una valle di lacrime.
E' così che vi appartiene questo mondo:
fatti fratelli nelle opposte passioni,
o le patrie nemiche, dal rifiuto profondo
a essere diversi: a rispondere
del selvaggio dolore di esser uomini.
Supplica a mia madre
E' difficile dire con parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.
Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d'ogni altro amore.
Per questo devo dirti ciò ch'è orrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.
Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.
E non voglio esser solo. Ho un'infinita fame
d'amore, dell'amore di corpi senza anima.
Perché l'anima è in te, sei tu, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:
ho passato l'infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.
Era l'unico modo per sentire la vita,
l'unica tinta, l'unica forma: ora è finita.
Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.
Ti supplico, ah, ti supplico: non voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile…
L'alba meridionale
II
Torno, ritrovo il fenomeno della fuga
del capitale, l'epifenomeno (infimo)
dell'avanguardia. La polizia tributaria
(quasi accertamento filosofico
sugli incartamenti di un poeta)
fruga in quel fatto privato che sono i soldi,
contaminati da carità, dolenti
di inspiegabili consunzioni, e pieni
di senso di colpa, come il corpo da ragazzi:
però con mia gongolante leggerezza perché qua,
non c'è da accertare nulla, se non la mia ingenuità.
Torno, e trovo milioni di uomini occupati
soltanto a vivere come barbari discesi
da poco su una terra felice, estranei
ad essa, e suoi possessori. Così nella vigilia
della Preistoria che a tutto ciò darà senso,
riprendo a Roma le mie abitudini
di bestia ferita, che guarda negli occhi,
godendo del morire, i suoi feritori…
Alla mia nazione
Non popolo arabo, non popolo balcanico, non popolo antico
ma nazione vivente, ma nazione europea:
e cosa sei? Terra di infanti, affamati, corrotti,
governanti impiegati di agrari, prefetti codini,
avvocatucci unti di brillantina e i piedi sporchi,
funzionari liberali carogne come gli zii bigotti,
una caserma, un seminario, una spiaggia libera, un casino!
Milioni di piccoli borghesi come milioni di porci
pascolano sospingendosi sotto gli illesi palazzotti,
tra case coloniali scrostate ormai come chiese.
Proprio perché tu sei esistita, ora non esisti,
proprio perché fosti cosciente, sei incosciente.
E solo perché sei cattolica, non puoi pensare
che il tuo male è tutto male: colpa di ogni male.
Sprofonda in questo tuo bel mare, libera il mondo.
José Duro - 1873-1899
Numa tarde de Verão dos meus doze anos, enquanto aguardava com estóica resignação que as três horas de digestão fossem volvidas para poder ir para o rio, aproximei-me da velha estante de cerejeira onde pilhas de livros se acumulavam em montes, desordenadas. Lá fora, por entre o silêncio quente de uma tarde de fim de Julho na Serra do Montemuro, só se ouvia o cantar das cigarras e o murmurar do rio caindo em pequenas cascatas do açude e escoandosse em correntes malandras até ao longe, ao São Macário com as suas aldeias de xistos e os clarões vermelhosnas noites de incêndios da cor da madeira da estante. Por detrás dos vidros, para além das cortinas vermelhas, chamou-me a atenção um pequeno livro, de capa amarelada e bastantes folhas dobradas. O papel, áspero e rugoso desprendia uma ligeira poalha que se elevava por entre o pontilhado de raios de luz que os estores fechados deixavam passar. O título era conciso como breve foi a paixão que me assaltou pelo livro. Chamava-se Fel e o escritor era José Duro.
Nessa tarde levei-o para o rio, não fui para a poço da dorna, com a sua pequena praia, por receio das brincadeiras dos outros miudos e com medo de danificar o meu novo tesouro. Fui para o açude, um pouco mais abaixo, sentei-me sobre as rochas mornas, sob inclinados amieiros que no Inverno se cobriam de água até às copas, nadei solitário e li, li muito e muito depressa, como quem, febril, bate os dentes a velocidade inaudita, e perdi-me em sonhos onde velhas gravuras de Gustave Doré de uma velha edição de Le Corbeau de Edgar A. Poe passavam fugazes na memória sobrepondo-se com o rendilhado verde das ogivas de amieiros por cima de mim. Foi um momento mágico que nunca mais esqueci.
Voltei para casa e remexi a estante. Lá no fundo, meio esmagadas sob uma pilha de vidas de santos, repousavam as oprimidas Flores. Lio-o nessa noite, de calções do pijama sobre os lençois de linho, ouvindo o cantar dos grilos e o rumor do Paiva. Era bom, sem dúvida, mas nada se podia comparar à impressão causada por Fel no meu espírito.
Os anos foram passando até que, já com os meus dezoito anos, num depósito de livros em várias mãos que muito dificilmente passaria por ser um alfarrabista, descobri, entre livros dos cinco e fotonovelas, um livro de Dispersos de José Duro. Gostei, mas, mais uma vez, nada se comparava à poalha que se desprendera das folhas naquela tarde de Verão da minha infância.
Durante anos o mantive e o li, de tempos a tempos, algumas vezes apenas um poema, outras vários de seguida. Ainda hoje o leio e continuo a amar a sombria suavidade de um verbo consciente de uma morte próxima. Sou piegas? Provavelmente sim! Contudo ao longo dos anos sempre me acompanhou e sempre me revelou novas maneiras de sublimar em verso a lúcida dor do viver no morrer.

Em Busca
Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…
E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…
Alvíssima
(Oração)
Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…
Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…
Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.
Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…
Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…
Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…
Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…
Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…
Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…
Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…
Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…
Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.
Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!
in Antologia de Poetas Alentejanos

Doente
Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!
Fogem de mim com asco as virgens d'olhar cálido...
E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,
Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...
Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,
Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,
E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.
E só estou contente ouvindo um alaúde.
Cada vez que me estudo encontro-me diferente,
Quando olham para mim é certo que estremeço;
E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,
O contrário talvez daquilo que pareço...
Espírito irrequieto, fantasia ardente,
Adoro como Poe as doidas criações,
E se não bebo absinto é porque estou doente,
Que eu tenho como ele horror às multidões.
E amando doudamente as formas incompletas
Que às vezes não consigo, enfim, realizar,
Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,
E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...
São filhos do meu tédio e duma dor qualquer
Meus sonhos de neurose horrivelmente histéricos
Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,
Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.
Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...
E aos lábios da Mulher, a desfazer-se em beijos,
Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,
Abrindo num ancelar de mórbidos desejos.
E é vão que medito e é em vão que sonho:
Meu coração morreu, minha alma é quase morta...
Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,
E oiço a Morte bater, sinistra, à minha porta...
Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,
E, por maior desgraça e por maior tormento,
Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -
Uma alma de poeta e um pouco de talento!
A doença que me mata é moral e física!
De que me serve a mim agora ter esperanças,
Se eu não posso beijar as trémulas crianças,
Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?
E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,
Perguntei ao Doutor: - Então?...- Hei-de curá-lo...
Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!
Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...
Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste
Alheio à sedução dos ideais perversos...
O poeta nunca morre embora seja agreste
A sua aspiração e tristes os seus versos!
A Caveira
Encontrei-a uma vez, a lívida caveira,
A rir, sinistramente, em doidas gargalhadas...
E pensei, nesse instante, ó almas torturadas!
Que ela seria em breve a minha companheira.
Depois vi, por meu mal, naquela ossada nua,
Que a Morte descarnara, em ânsias, brutalmente,
A imagem do meu ser, gelada e inconsciente,
Bebendo a luz do sol e as lágrimas da lua...
E tive ainda mais ódio a este viver tristonho,
Que arrasto, sem te ver, eu que por ti vivia,
Ó alma da minha alma e sonho do meu sonho!
Entretanto, começava o dia a esmorecer...
E eu fui-me perguntar à Sombra, que descia,
Se acaso não seriam horas de eu morrer!
(Gustave Doré)
O corvo
Quando o meu corvo, trêmulo, doente,
- Como quem sofre as minhas agonias -
Naquela noite veio, amargamente,
Dizer-me, soluçando, que morrias,
Percebi-lhe no olhar as nostalgias
da noite negra, sem luar, fremente,
Aonde as suas asas luzidias
Tomaram cor misteriosamente...
E à luz medrosa do candeeiro exausto,
Bebendo a minha dor num longo hausto
Mais triste que o soluço das nortadas,
Analisei a mágua de nós dois
Para ver qual sofria mais... depois...
Céus! Desatei, chorando, às gargalhadas!
Noivado Estranho
Quisera amar-te muito, ó Gémea do luar,
Num sonho excepcional, só de carícias feito,
Abendiçoar o céu na luz do teu olhar,
E a alma adormecer na curva do teu peito;
Quisera amar-te sempre, ó Doce como arminho
E casta como a pomba em seus arrulhos doces...
E, em troca deste amor, viver do teu carinho,
Que eu não vivia, não, Mulher, se tu não fosses!
Passar a vida inteira a ver-me nos teus olhos,
Apenas ter ventura em vez de ter abrolhos,
Beber o teu sorriso, e as máguas esquecê-las...
E quando a morte viesse e nos levasse a ambos
Realizarmos então os desejados tambos,
Na Igreja do Além... em meio das estrelas.
in Fel
Labels:
Fel,
José Duro,
literatura portuguesa,
Poesia,
Poesia portuguesa,
século XIX
Augusto dos Anjos - 1884 - 1914
Obrigado Annelise por mo teres dado a conhecer.
Um beijo
Ricardo

MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
“Sou uma sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
- O metaficismo de Abidarma –
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro o meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza o meu irmão mais velho!"

DEBAIXO DO TAMARINDO
No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos.
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
A ÁRVORE DA SERRA
- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...
- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

VERSOS ÍNTIMOS
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos – Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
Um beijo
Ricardo

MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
“Sou uma sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
- O metaficismo de Abidarma –
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro o meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza o meu irmão mais velho!"

DEBAIXO DO TAMARINDO
No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos.
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
A ÁRVORE DA SERRA
- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...
- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

VERSOS ÍNTIMOS
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos – Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
Ruy Belo

JOSÉ O HOMEM DOS SONHOS
Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
Um só encontro próprio e justo:
o de josé o homem dos sonhos
Eu canto os pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É josé o homem dos sonhos
Deus põe e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser josé o homem dos sonhos.
E TUDO ERA POSSÍVEL
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)
P O V O A M E N T O
No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates
Lisboa, Editorial Presença, 1996 (5ª ed.)
TO HELENA
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente
Mulher sentada
Essa mulher sentada de ribeiro de pavia
nas maçãs salientes risco ao meio e ancas arqueadas
(das pernas nada digo pois sou púdico e além disso há a mesa de permeio)
essa mulher durante tantos anos perseguida e só muito raras vezes conseguida
no mínimo desenho do pintor alentejano
finalmente perdida como tudo com a vida essa mulher amendoada
mas de cabelo louro (oxigenado?) e de dois olhos
possivelmente obtidos a partir desse lápis-lazúli
ainda não há muito visto mesmo mais que entrevisto
em dois botões de punho que o hernani me deixou ao voltar para o chile
entre compreensivos conviventes versos sobre a mesa do meu quarto
de solteiro e amiúde solitário
da casa do brasil onde em madrid envelheci um ano
esse lápis-lazúli que eu esquecera em roma numa mesa de oratório
e tão bem conhecia do antónio nobre onde me conhecera
não menos que em courelas do guerreiro ou do costa alemão
(já não sei qual dos dois) concretamente se chamava
silicato complexo de alumínio e sódio
(que forma mais complexa se utiliza - lembro-me - pensava -
pra nomear uma só pedra embora rara baça sonhadoramente azul
que já de si se chama de maneira complicada)
essa mulher sentada jamais pode conhecer
quem envelhece ao fim do corredor dos dias
e acaba de passar ao lado de umas árvores moldadas despenteadas pelo vento
sob a macia abóbada do lusco-fusco
num carro porventura expressamente encarregado
de difundir esse quarteto salvo erro número dois de haydn
entre as íntimas ervas dos velados campos
onde perdeu coisas concretas como a sua juventude
um búzio um rancho de mulheres ou o varejo da azeitona
alguns cabelos uma chave ou uma rima original
Raios a partam e depois de todos estes digressivos versos
essa mulher na mesma ali sentada e assentada
sozinha à minha espera à espera de um sentido para a vida
à espera de um marido à espera do natal
Requiem por um cão
Cão que matinalmente farejavas a calçada
as ervas os calhaus os seixos os paralelipípedos
os restos de comida os restos de manhã
a chuva antes caída e convertida numa como que auréola da terra
cão que isso farejas cão que nada disso já farejas
Foi um segundo súbito e ficaste ensanduichado
esborrachado comprimido e reduzido
debaixo do rodado imperturbável do pesado camião
Que tinhas que não tens diz-mo ou ladra-mo
ou utiliza então qualquer moderno meio de comunicação
diz-me lá cão que faísca fugiu do teu olhar
que falta nesse corpo afinal o mesmo corpo
só que embalado ou liofilizado?
Eras vivo e morreste nada mais teus donos
se é que os tinhas sempre que de ti falavam
falavam no presente falam no passado agora
Mudou alguma coisa de um momento para o outro
coisa sem importância de maior para quem passa
indiferente até ao halo da manhã de pensamento posto
em coisas práticas em coisas próximas
Cão que morreste tão caninamente
cão que morreste e me fazes pensar parar até
que o polícia me diz que siga em frente
Que se passou então? Um simples cão que era e já não é
Ruy Belo, Transporte no Tempo
Lisboa, Editorial Presença, 1997 (4 ª ed.)
Labels:
Cultura Portuguesa,
Poesia,
Poesia portuguesa,
Ruy Belo,
século XX
terça-feira, fevereiro 6
Homenagem a Louise Labé: Guillaume Aubert

ODE
Des louenges
de Dame Louïze Labé,
Lionnoize.
Il ne faut point que j'appelle
Les hauts Dieus à mon secours,
Ou bien la bande pucelle
Pour m'ayder en mon discours.
Puis que les Dieus, de leur grace,
Les saintes Muses, les Cieus,
Ont tant illustré la face,
Le corps, l'esprit curieus
De celle, dont j'apareille
La louenge nompareille,
Je congnoy bien clerement
Que toute essence divine
Me favorise, et s'encline
A ce beau commencement.
Sus sus donq, blanche senestre
Fay tes resonans effors :
Et toy, ô mignarde destre
Chatouille ses dous acors
Chantons la face angelique,
Chantons le beau chef doré,
Si beau, que le dieu Delphique
D'un plus beau n'est decoré.
Noublions en notre metre
Comme elle osa s'entremettre
D'armer ses membres mignars :
Montrant au haut de sa teste
Une espouvantable creste
Sur tous les autres soudars.
O noble, ô divin chef d'euvre
Des Dieus hauteins tous puissans,
Au moins meintenant descoeuvre
Tes yeus tous resjouissans,
Pour voir ma Muse animee,
Qui de sa robuste main
Haussera ta renommee
Trop mieux que ce vieil Rommain
Qui sa demeure ancienne,
La terre Saturnienne
Delaissa pour ta beauté,
Afin qu'à toy rigoureuse
Il fut hostie piteuse
En sa ferme loyauté.
La Muse docte divine
Du vieillard audacieus
Par le vague s'achemine
Pour t'enlever jusqu'aus Cieus :
Niais la Parque naturelle
Dens les Iberiens chams,
Courut desemplumer l'aile
De ses pleurs et de ses chans :
Envoyant en sa vieillesse,
Mal seant en ta jeunesse,
Son corps, au tombeau ombreus :
Et son ame enamouree
En l'obscure demouree
Des Royaumes tenebreus.
Dieus des voutes estoilees,
Qui en perdurable tour
Retiennent emmantelees
Les terres, tout à l'entour :
Permetez moy que je vive
Des ans le cours naturel,
A fin qu'a mon gré j'escrive
En un ouvrage eternel,
De cette noble Deesse
La beauté enchanteresse,
Ce qu'elle ha bien merité :
Et qu'en sa gloire immortelle,
On voye esbahie en elle
Toute la posterité.
Ainsi que Semiramide
Qui feingnant estre l'enfant
De son mari, print la guide
Du Royaume trionfant,
Puis démantant la Nature
Et le sexe feminin,
Hazarda à l'aventure
Son corps jadis tant benin,
Courant furieuse en armes
Parmi les Mores gendarmes,
Et es Indiques dangers
De sa rude simeterre
Renversant dessus la terre
Les escadrons estrangers.
Ainsi qu'es Alpes cornues
(Qui, soit hiver soit Esté,
Ont tousjours couvert de nues,
Le front au Ciel arresté)
On voit la superbe teste
D'un roc de pins emplumé,
Ravie par la tempeste
De son corps acoutumé,
En roullant par son orage,
Froisser tout le labourage,
Des Beufs les apres travaus,
Ne laissant rien en sa voye,
Qu'en pleces elle n'envoye,
Cherchant les profondes vaux.
Ou comme Penthasilee,
Qui pour son ami Hector
Combatoit entremeslee
Par les Grecs, aus cheveus d'or,
Ores de sa roide lance
Enferrant l'un au travers,
Or du branc en violance
Trebuchant l'autre à l'envers
Et ainsi que ces pucelles
Qui l'une de leurs mammelles
Se bruloient pour s'adestrer
Aus combas et entreprises
Aus bons guerroyeurs requises,
Pour l'ennemi rencontrer.
Louïze ainsi furieuse
En laissant les habiz mols
Des femmes, et envieuse
De bruit, par les Espagnols
Souvent courut, en grand' noise
Et meint assaut leur donna,
Quand la jeunesse Françoise
Parpignan environna.
Là sa force elle desploye,
Là de sa lance elle ploye
Le plus hardi assaillant :
Et brave dessus la celle
Ne demontroit rien en elle
Que d'un chevalier vaillant.
Ores la forte guerriere
Tournoit son destrier en rond :
Ores en une carriere
Essayoit s'il estoit pront :
Branlant en flots son panache,
Soit quand elle se jouoit
D'une pique, ou d'une hache,
Chacun Prince la louoit :
Puis ayant à la senestre
L'espee ceinte, à la destre
La dague, enrichies d'or,
En s'en allant toute armee,
Ell' sembloit parmi l'armee
Un Achile, ou un Hector.
L'orguilleus fils de Climene
Nous peut bien avoir apris
Qu'il ne faut par gloire vaine
Qu'un grand trein soit entrepris.
L'entreprise qui est faite
Sans le bon conseil des Dieus
N'a point, ainsi qu'on souhaite,
Son demier efet joyeus :
Ainsi cette belliqueuse
Ne fut jamais orguilleuse
Telle au camp elle n'alla :
Ains ce fut à la priere
De Venus, sa douce mere,
Qui un soir lui en parla.
Un peu plus haut que la plaine,
Ou le Rone impetueus
Embrasse la Sone humeine
De ses grans bras tortueus,
De la mignonne pucelle
Le plaisant jardin estoit,
D'une grace et façon telle
Que tout autre il surmontoit :
En regardant la merveille
De la beauté nompareille
Dont tout il estoit armé,
Celui bien on l'ust pù dire
Du juste Roy de Corcyre
En pommes tant renommé.
A l'entree on voyoit d'herbes
Et de thin verflorissant,
Les lis et croissans superbes
De notre Prince puissant
Et tout autour de la plante
De petits ramelets vers
De marjoleine flairante
Estoient plantez ces six vers
DV TRESNOBLE ROY DE FRANCE
LE CROISSANT NEVVE ACROISSANCE
DE IOVR EN IOVR REPRENDRA,
IVSQVES A TANT QVE SES CORNES
IOINTES SANS AVCVNES BORNES
EN VN PLEIN ROND IL RENDRA.
Tout autour estoient des treilles
Faites avec un tel art,
Qu'aucun n'ust sù sans merveilles
Là espandre son regard :
La voute en estoit sacrée
Au Dieu en Inde invoqué
Car elle estoit acoutree
Du sep au raisin musqué :
Les coulomnes bien polies
Estoient autour enrichies
De Romarins et rosiers,
Lesquels faciles à tordre
S'entrelassoient en bel ordre
En mile neus fais d'osiers.
Au milieu, pour faire ombrage,
Estoient meints arceaux couvers
De Coudriers et d'un bocage
Fait de cent arbres divers
Là l'Olive palissante
Qu'Athene tant réclama
Et la branche verdissante
Qu'Apolon jadis ayma :
Là l'Arbre droit de Cibelle
Et le cerverin rebelle
Au plaisir vénérien :
Avec l'obscure ramee
Par Phebe Jadis formee
Du corps Cyparissien.
Sous cette douce verdure,
Soit en sa gaye saison
Ou quand la triste froidure
Nous renferme en la maison,
Tarins, Rossignols, Linotes
Et autres oiseaus des bois
Exercent en gayes notes
Les dous jargons de leurs voix
Et la vefve tourterelle
Y pleint et pleure à par elle
Son amoureus tout le jour :
De sa parole enrouee
A pleints et à pleurs vouee
Efroyant l'air tout autour.
Et à fin qu'à beauté telle
Rien manquer on ne pust voir,
De la beauté naturelle
Qu'un beau jardin peut avoir,
Il y ut une fonteine,
Dont l'eau, coulant contre val
En sautant hors de sa veine
Sembloit au plus cler cristal
Elle ne fut point ornee
Ny autour environnee
De beaux mirtes Cipriens
Ny de buis, ny d'aucun arbre,
Ny de ce precieus marbre
Qu'on taille es monts Pariens.
Mais elle estoit tapissee
Tout l'environ de ses bors,
Ou son onde courroucee
Murmuroit ses dous acors,
D'herbe tousjours verdoyante,
Peinte de diverses fleurs,
Qui en l'eau dousondoyante
Mesloient leurs belles couleurs.
Qui ust regardé la teste
D'un Narcisse qui s'arreste
Tout panchant le col sur l'eau,
On ust dit que son courage
Contemploit encor l'image
Qui trop et trop lui fut beau.
Aussi par cette verdure
Estoit le jaune Souci,
Qui encor la peine dure
De ses feus n'a adouci :
Ainsi tousjours se vire et tourne
Vers son Ami qu'il veut voir,
Soit au matin, qu'il ajourne,
Ou quand il est pres du soir.
Là aussi estoient brunettes
Mastis, damas, violettes
Çà et là sans nul compas :
Avec la fleur, en laquelle
Hiacinte renouvelle
Son nom apres son trespas.
Le ruisseau de cette sourse
A par soy s'ebanoyant,
D'une foible et lente course
Deçà delà tournoyant,
Faisoit une portraiture
Du lieu ou fut enfermé
Le monstre contre nature
En Pasiphaé formé ;
Puis son onde entrelassee,
De longues erreurs lassee
Par un beau pré s'espandoit :
Ou maugré toute froidure
Une plaisante verdure,
Etemelle elle rendoit.
Titan laissant sa campagne
Peu à peu sous nous couloit,
Et dens la tiede eau d'Espagne
Son char il desateloit :
Quand en ce lieu de plaisance
Louïze estoit pour un soir,
Qui cherchant resjouissance
Pres la font se vint assoir :
Elle ayant assez du pouce
Taté l'harmonie douce
De son lut, sentant le son
Bien d'acord, d'une voix franche
Jointe au bruit de sa main blanche,
Elle dit cette chanson :
« La forte Tritonienne,
Fille du Dieu Candien
Et la vierge Ortygienne
Seur du beau Dieu Cynthien
Sont les deus seules Deesses
Ou J'ay mis tout mon desir,
Et que je sù pour maitresses
Des mon enfance choisir.
Si Venus m'a rendu belle,
Et toute semblable qu'elle
Avec sa divinité,
Que pourtant elle ne pense,
Qu'en un seul endroit j'ofense
Ma chaste virginité. »
La pucelle Lionnoize
Fredonnant meints tons divers,
Au son plein de douce noise,
N'ut deus fois chanté ces vers,
Qu'un sommeil de course lente
Descendant parmi les Cieus,
Finit sa voix excellente
Et son jeu melodieus.
Sur la verdure espandue
Tous dous il l'a estendue,
Flatant ses membres dispos :
Dessus ses yeus il se pose,
Et tout son corps il arrose
D'un tresgracieus repos.
En dormant tout devant elle
Sa mere se presenta,
En son beau visage telle
Qu'alors qu'elle s'acointa
D'Anchise, pres du rivage
Du Simoent Phrygien :
Dont naquit le preus courage
Qui au camp Hesperien
Renouvella la memoire,
Et la trionfante gloire
Du sang Troyen abatu,
Qui devoit en rude guerre
Tout le grand rond de la Terre
Conquenir par sa vertu.
Ell' regarde par merveille
Son visage nompareil,
Son haut front, sa ronde oreille,
Son teint freschement vermeil,
Le vif coral de sa bouche,
Ses sourcis tant gracieus,
Que doucement elle touche
Pour voir les rais de ses yeus
Non sans contempler encore
Celle beauté qui decore
La rondeur de son tetin,
Qui ni plus ni moins soupire
Qu'au printems le dous Zephire
Alenant l'air du matin.
Apres que la Cyphienne
Ut son regard contenté,
Voyant de la fille sienne
La plus qu'humeine beauté,
Esbahie en son courage
De sa grand' perfeccion,
Elle augmenta davantage
Vers ell' son afeccion :
Puis toute gaye et joyeuse,
D'une voix tresgracieuse,
Pour descouvrir son souci,
Tenant les vermeilles roses
De sa bouche un peu descloses
Elle parola ainsi :
« Les Dieus n'ont voulu permettre
Aux vains pansers des mortels,
Que d'eus ils se pussent mettre
A fin : bien que leurs autels
Soient tous couvers de fumee,
Ou pour gagner leur faveur,
Ou pour leur ire animee
Faire tourner en douceur,
Tous les veus pas ils n'entendent
Qui devant leurs yeus se rendent :
Ains les ont à nonchaloir
Veu ni priere qu'on face
N'y font n'en, si de leur grace
Ils n'ont un mesme vouloir.
Que penses tu fille chere ?
Penses tu bien resister
Contre les dars de ton frere
S'il lui plait t'en molester ?
Il scet domter tout le monde
De son arc audacieus :
L'Ocean, la Terre ronde,
L'Air, les Enfers, et les Cieus.
Onq fille n'ut la puissance
De lui faire resistance,
Et ses fiers coups soutenir :
Mais je te veus faire entendre
Pourquoy j'ai voulu descendre
Du Ciel, pour à toy venir.
Les hommes, pleins d'ignorance,
Citoyens de ces bas lieus,
Te pensent de leur semence,
Et non de celle des Dieus :
Mais par trop ils se deçoivent
(Bien qu'ils le tiennent par seur)
Et assez ils n'aperçoivent
De ta beauté la grandeur.
Qui diroit, voyant ta face,
Que tu fusses de la race
D'un,homme simple et mortel ?
La Terre sale et immunde,
Ne sauroit aus yeus du monde
De soy produire riens tel.
Tout ainsi la beauté rare
D'Heleine, chacun pensoit
Engendree de Tyndare :
Car on ne la connoissoit.
Toutefois si estoit elle
Fille du Dieu haut tonnant
Qui sa maison supernelle,
Le haut Ciel, abandonnant,
Atourné d'un blanc plumage,
Semblant l'Oiseau qui presage,
En chantant, sa proche mort,
En Lede fille de Theste
De sa semence celeste,
Le conçut par son effort,
Avecques deux vaillans freres
Dont l'un alaigre escrimeur
Domta les menasses fieres,
Et la trop àpre rigueur
Du cruel Roy de Bebrice
Acoutumé d'outrager,
Et meurtrir par sa malice
Chacun soudart estranger
L'autre, de hardi courage,
Inventa premier l'usage
De joindre au char le coursier :
Ou il se roula grand'erre
Effroyant toute la terre
Des deux ronds bornez d'acier.
Ainsi, bien qu'on ne te donne
L'honneur d'estre de mon sang,
Et du fier Dieu qui ordonne
Les puissans soudars en rang,
Si m'est ce chose asseuree
Que de Gradive le fort
En moy tu fus engendree,
Joingnant le gracieus bord
Ou la Sorte toute quoye
Fait une paisible voye
S'en allant fendre Lion :
Dens lequel on voit encore
Un mont*, ou lon me decore,
Qui retient de moy son nom.
Le lieu ou tu fus conçue
Ne fut vile ny chateau,
Ains une forest tissue
De meint plaisant arbrisseau,
Dont je veux (en témoignage
De ta race) te pourvoir
Ainsi que d'un heritage
Que je tiens en mon pouvoir.
Là autour sont meintes plaines,
Esquelles les blondes graines
De Ceres pourras cueillir,
Et la liqueur qui agree
A Bachus, et meinte pree
Ou l'herbe ne peut faillir.
Là aussi sont meints bocages
Deçà delà espandus,
Ou en tout tems les ramages
Des Oiseaus sont entendus.
Par fois tu y pourras tendre
Le ret rare, à ton desir,
Et quelque gibier y prendre
Pour acroitre ton plaisir :
Ou t'exerçant à la chasse
Tu poursuivras à la trace
Les Lievres fulans de peur,
De chiens autour toute armee,
Vagans dessous la ramee
Se guidans à la senteur.
Et si par trop tu te peines
En trop violent effort,
De meintes cleres fonteines
Tu pourras avoir confort :
L'eau sortante de leur sourse
Tes membres refreschira,
Et la murmurante course
A son bruit t'endormira :
Apres chargee de proye,
Tu te pourras mettre en
Pour à ton chateau tourner,
Qu'en brief batir je veus faire,
Sufisant pour te complaire
S'il te plait y sejourner.
Sur tout (fille) je t'avise,
Que d'un coeur tant odieus
Ton frere tu ne mesprise,
C'est le plus puissant des Dieus.
En ta beauté excellente
Meint homme il rendra transi,
Mais sa main ne sera lente
A te tourmenter aussi.
Prens bien à ce propos garde,
Car ja desja il te darde
Son tret àpre et rigoureus
Dont il t'abatra par terre,
Rendant d'un homme de guerre
Ton tendre coeur amoureus.
En ce il prendra bien vengeance
Du bon Poëte Rommain,
Auquel sans nulle allegeance
Ton coeur est trop inhumein.
Bien prendra à ta jeunesse
Avoir apris à soufrir
Des durs harnois la rudesse,
Et à meint travail s'ofrir :
Souvent seras rencontree
Depuis la tarde vespree
Jusqu'au point du prochein jour,
Parmi les bois languissante
Et tendrement gemissante
La grand' cruauté d'Amour.
Alors, pour estre asseuree
Point en femme tu n'iras,
Ains d'une lance paree
Chevalier tu te diras.
Ja en ton harnois bravante
Je te regarde assaillir
Meint chevalier, qui se vante
Hors de l'arçon te saillir
Puis dextrement aprestee
Ayant ta lance arrestée,
Le desarçonner en bas,
Lui tout froissé, à grand'peine
Lever son arme incerteine,
Chancelant à chacun pas.
A si grans travaus ton frere
Durement te contreindra,
Jusqu'à ce qu'à la premiere
Liberté il te rendra :
Alors laissant les alarmes
Et les hazars perilleus,
Tu rueras jus les armes,
Et le courage orguilleus
Dont tu soulois mettre en terre
Meint vaillant homme de guerre
Renversé sous son escu,
Qui repentant en sa face
De sa premiere menasse,
Tout haut se choit vaincu.
Donq laissant dague et espee
Ton habit tu reprendras,
A plus dous jeus ocupee
Ton dous lut tu retendras
Et lors meints nobles Poëtes,
Pleins de celestes esprits,
Diront tes graces parfaites
En leurs tresdoctes escriz :
Marot, Moulin, la Fonteine
Avec la Muse hauteine
De ce Sceve audacieus,
Dont la tonnante parole,
Qui dens les astres carole
Semble un contrefoudre es Cieus.
Toutefois leur fantasie
Ton loz point tant ne dira,
Comme d'un la Poësie,
Qui de l'onde sortira
Du petit Clan, dont la rive
Privee de flots irez,
Ha en tout tems l'herbe vive
Autour des bors retirez.
De cil la Muse nouvelle
Rendra ta grace immortelle :
Du Ciel il est ordonné
Qu'à lui le bruit de la gloire
De t'avoir mise en memoire,
Entierement soit donné.
Qu'à ton coeur tousjours agree
Du Poëte le labeur :
Son escriture est sacree
A tout immortel bonheur.
Ayant qui ton loz escrive,
Mourir ne peus nullement :
Ainsi Laure, ainsi Olive
Vivent eternellement.
Un Bouchet en façon telle,
Met en memoire immortelle
De son Ange le beau nom :
Sacrant l'Angelique face,
Sa beauté, sa bonne grace,
Au temple du saint renom. »
A tant la Deesse belle
Mit fin à son dous parler :
Son chariot elle atelle
Toute preste à s'en voler :
Les mignonnes colombelles
Par le vague doucement
Esbranlent leurs blanches esles
D'un paisible mouvement.
Louïze estant esveillee
Resta toute esmerveillee
De la sainte vision :
Ignorante si son songe
Est verité ou mensonge,
Ou quelque autre illusion.
Son corps droit, sa bonne grace,
Son dur teton, ses beaux yeus,
Les divins traits de sa face,
Son port, son ris gracieus,
Le front serein, la main belle,
Le sein comme albastre blanc,
Montrent evidemment qu'elle
Sortit du Ciprien flanc.
Puis sa vaillance et prouesse,
Son courage, son adresse,
Et la force du bras sien
De grand heur acompagnee,
La montrent de la lignee
Du Gradive Thracien.
Mais d'autre part, sa doctrine,
Sa sagesse, son savoir,
La pensee aus arts encline
Autant qu'autre onq put avoir.
Les vers doctes qu'elle acorde,
En les chantant de sa voix,
A l'harmonieuse corde,
Fretillante sous ses doits
Et la chasteté fidelle,
Qui tousjours est avec elle,
Nous rendent quasi tous seurs
Qu'elle ut la naissance sienne
De la couple Cynthienne,
Ou de l'une des neuf Seurs.
Toutefois il nous faut croire
Ce que nous disent les Dieus,
Qui par la nuitee noire
Se montrent aux dormans yeus.
Ainsi Hector à Enee
En un songe s'aparut
Et la sienne destinee
En songe il lui discourut.
Souvent la future chose
Du sain esprit qui repose
Est prevuë de bien loin :
Ce songe presque incroyable,
Qui apres fut venitable,
En pourra estre témoin.
Mais il est tems douce Lire
Que tu cesse tes acors.
Si assez tu n'as pù dire,
Si as tu fait tes effors.
Celle harpe Methimnoise
Qui peut la mer esmouvoir,
N'ut la Ninfe Lionnoize
Chanté selon son devoir :
Non pas toute la Musique
De celle bende Lirique
Qui (long tems ha) florissoit
En la Grece : qui meint Prince,
Meint païs, meinte Province,
De son chant resjouissoit.
Poème attribué à Guillaume Aubert
Labels:
Guillaume Aubert,
Louise Labé,
Poesia,
poesia cortesã,
poesia francesa
Louise Labé, courtisaine lyonaise et celle qui fut la Belle Cordière

Baise m'encor, rebaise moy et baise
Donne m'en un de tes plus savoureus,
Donne m'en un de tes plus amoureus :
Je t'en rendray quatre plus chaus que braise
Las, te plains-tu ? ça que ce doux mal j'apaise,
En t'en donnant dix autres doucereus.
Ainsi meslans nos baisers tant heureus
Jouissons nous l'un de l'autre à notre aise.
Lors double vie à chacun en suivra.
Chacun en soy et son ami vivra.
Permets m'Amour penser quelque folie :
Tousjours suis mal, vivant discrettement
Et ne me puis donner contentement,
Si hors de moy ne fay quelque saillie.
_________
Si jamais il y eut plus clairvoyant qu'Ulysse,
Il n'aurait jamais pu prévoir que ce visage,
Orné de tant de grâce et si digne d'hommage,
Devienne l'instrument de mon affreux supplice.
Cependant ces beaux yeux, Amour, ont su ouvrir
Dans mon coeur innocent une telle blessure
-Dans ce coeur où tu prends chaleur et nourriture-
Que tu es bien le seul à pouvoir m'en guérir.
Cruel destin ! Je suis victime d'un Scorpion,
Et je ne puis attendre un remède au poison
Que du même animal qui m'a empoisonnée !
Je t'en supplie, Amour, cesse de me tourmenter !
Mais n'éteins pas en moi mon plus précieux désir,
Sinon il me faudra fatalement mourir.

Quand j'aperçois ton blond chef, couronné
D'un laurier vert, faire un luth si bien plaindre
Que tu pourrais à te suivre contraindre
Arbres et rocs ; quand je te vois orné,
Et, de vertus dix mille environné,
Au chef d'honneur plus haut que nul atteindre,
Et des plus haut les louanges éteindre,
Lors dit mon coeur en soi passionné :
Tant de vertu qui te font être aimé,
Qui de chacun te font être estimé,
Ne te pourraient aussi bien faire aimer ?
Et, ajoutant à ta vertu louable
Ce nom encor de m'être pitoyable,
De mon amour doucement t'enflammer ?
__________
Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,
Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,
Ô noires nuits vainement attendues,
Ô jours luisants vainement retournée !
Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,
Ô temps perdu, ô peines dépendues,
Ô milles morts en mille rets tendues,
Ô pires maux contre moi destiné !
Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !
Ô luth plaintif, viole, archet et voix !
Tant de flambeaux pour ardre une femelle !
De toi me plains, que tant de feux portant,
En tant d'endroits d'iceux mon coeur tâtant,
N'en ai sur toi volé quelque étincelle.
_______
Ô longs désirs, ô espérances vaines,
Tristes soupirs et larmes coutumières
À engendrer de moi maintes rivières,
Dont mes deux yeux sont sources et fontaines !
Ô cruautés ô durtés inhumaines,
Piteux regards des célestes lumières,
Du coeur transi ô passions premières
Estimez-vous croître encore mes peines ?
Qu'encor Amour sur moi son arc essaie,
Que de nouveaux feux me jette et nouveaux dards,
Qu'il se dépite et pis qu'il pourra fasse :
Car je suis tant navrée en toute part
Que plus en moi une nouvelle plaie
Pour m'empirer, ne pourrait trouver place.
___________
Depuis qu'Amour cruel empoisonna
Premièrement de son feu ma poitrine,
Toujours brûlai de sa fureur divine,
Qui un seul jour mon coeur n'abandonna.
Quelque travail, dont assez me donna,
Quelque menace et prochaine ruine,
Quelque penser de mort qui tout termine,
De rien mon coeur ardent ne s'étonna.
Tant plus qu'Amour nous vient fort assaillir,
Plus il nous fait nos forces recueillir,
Et toujours frais en ses combats fait être ;
Mais ce n'est pas qu'en rien nous favorise,
Cil qui des Dieux et des hommes méprise,
Mais pour plus fort contre les forts paraître.
_______
Las ! cettui jour, pourquoi l'ai-je dû voir,
Puisque ses yeux allaient ardre mon âme ?
Doncques, Amour, faut-il que par ta flamme
Soit transmué notre heur en désespoir !
Si on savait d'aventure prévoir
Ce que vient lors, plaints, poinctures et blâmes ;
Si fraîche fleur évanouir son bâme
Et que tel jour fait éclore tel soir ;
Si on savait la fatale puissance,
Que vite aurais échappé sa présence !
Sans tarder plus, que vite l'aurais fui !
Las, Las ! que dis-je ? O si pouvait renaître
Ce jour tant doux où je le vis paraître,
Oisel léger, comme j'irais à lui !
(atribuido a Louise Labé)
Labels:
Louise Labé,
Poesia,
poesia cortesã,
poesia francesa
Subscrever:
Mensagens (Atom)