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segunda-feira, abril 16

Elegia do Intendente



Olhos verdes, pele bronzeada por gerações de nomadismo, cabelos louros pintados compridos sobre carnações pujantes. Por detrás do balcão serves, olhas, danças, mostrando uma deliciosa barriga e o oval perfeito do rosto a emoldurar condignamente um bem balanceado ondular dos seios refreados por uma camisola de malha preta justa ao torso. As calças justas moldam um corpo de jovem potra de olhar profundamente insondável onde se revela a graça de um trote como o remanso de um palheiro. Quantas vezes te vejo passar rápida, sumarentemente moldada na luz da porta por onde se entra neste tugúrio. Discreta na tua pujança atravessas a sala e lanças insolente um olhar onde a tudo se alude e nada se diz. De repente, pedes lume. Dou-te lume e aproveito para acender o meu cigarro sem que os nossos olhares se cruzem na sensual e mística sublimação de dois corpos que se analisam. Os lábios carnudos deixam ver um pouco dos dentes. Passas dançando num cadenciado ritmo bamboleante e logo te detens admirando, como uma criança, o efeito que causaste. Vens limpar a mesa em frente a mim, a camisola sobe revelando a suave curvatura de dois sulcos que te ladeiam a coluna perdendo-se na cintura generosamente baixa. Olhas e indagas num curioso convite ou num convite curioso. Levantas os braços e prendes melhor os cabelos que recolheras num fulgente e ondulado rabo de cavalo. Depois, dirisges-te à porta e danças. A pauta esgueira-se em curvas num quase imperceptível menear de quadris. E afinal tudo dura o átomo infindável de uma ilusão. A luz recorta-te o corpo na moldura da porta. Giovanni passa. Hoje orna a sua reluzente careca com um par de calças normais; porém, o teu ar de alien alheado mantem-se enquanto te diriges à minha mesa olhando gulosamente para a minha bolsa de tabaco. Coloco a caixa de mortalhas sobre a bolsa numa oferta tacitamente aceite. enrolas e sais sem dizer palavra. Chegando ao pé da porta, voltas para trás e pegas no isqueiro, acendes e voltas a poisá-lo sem fazer barulho. Depois eclipsas-te e de por hoje bastar-me-ão as tuas neuróticas e apressadas fugas nervosas ao longo da Rua do Bem Formoso. De costas para o balcão que se interpõe entre nós, absorta em qualquer tarefa obscura, observo-te a nuca onde uma penugem faz sombra, juntamente com alguns cabelos mais curtos que se escaparam ou qaue não conseguiste apanhar.
De longe a longe, a espaços, as mais estranhas toilettes sucedem-se num desfilar de tristes figuras de que prefiro alhear-me. Depois, acende-se o ritmo endiabrado de um Lee Scratch Perry e o pulso parte veloz ao galope como o teu corpo por trás do balcão finda que foi a tarefa de contar conscienciosamente um frasco de plástico repleto de moedas. Depois, o patrão veste o casaco e sai com o rosto sombrio que sempre lhe conheci. Um rosto de singalês de hábitos pelintramente azeiteiros como o da velha publicidade à Peugeot. O ar torna-se mais respirável, seguramente as curvas bombeantes de um bom baixo reggae foram salutares para a renovação da atmosfera. Giovanni aparece e olha, depois sai nervosamente apressado e sem destino. O patrão retorna e pede-te que me venhas pedir o isqueiro emprestado para enrolar uma broca na silenciosa hostilidade de quem, arvorando um sorriso sarnosamente manhoso, não é capaz de esconder o facto de não suportar a minha presença. Sabe que o desprezo e que me dá um gozo infinito chegar e, sentado, começar a escrever. Entretanto, vou fazendo a média de um café de duas horas e meia em duas horas e meia. Saber que isso te enfurece e que és suficientemente verme para estares calado é uma lição sobre a baixeza do ser. O teu sócio, sacana e inteligente em superior proporção, esconde-se atrás de um enigmático sorriso de esfinge. Tu, alheia aos ódios e velhos rancores de quem se enganou a considerar um cliente como certo e se viu desiludido nos consumos esperados, continuas na tua ondeante azáfama tentando demonstrar com o serviço o que não consegues com uma caixa que persiste em permanecer frugalmentwe recheada. De vez em quando, o teu olhar volta-se, inquiridor e felino como predador/presa que a caça busca. Sais por momentos para ires comprar comida feita que comes apressadamente na ânsia de satisfazer o apetite do corpo jovem e farto. Dá gosto ver-te comer, mastigando depressa, com as covinhas do rosto aos saltos. Já acabaste e agora rebolas-te à luz do sol que te recorta na moldura da porta a graça ondeante de jovem fémea.
Mantorras, que assim te chamam sarcásticos os que todos os dias contigo palmilham a Rua do Bem Formoso, foi a casa do irmão e negociou a barrela quinzenal por uns fartos litros de vinho do discount. Ei-lo que passa, lavado, com um malhão de lã imaculadamente branco, uns jeans lagos e o sebento chapéu de lona que sempre lhe conheci. Não vai só porém, na mão leva a tinta companhia de um tijolo. Pouco depois comparece a galeria sexual do bizarro sob as formas de um jockey mamalhudo. Entra, olha em redor e sai com o passo bamboleante de anã. Depois o momento interrompe-se com a audição de Stop that train em versão dub e logo se volta à pureza de um Peter Tosh com a rudeza de um Johnny be good. As meninas nigerianas ouvem-se ao longe com o seu gralhar pitoresco. Depois entra o solo de guitarra e vejo-me preso nas evoluções para logo ser interrompido pela voz de Tosh que me retorna a uma realidade feita de rude brutalidade quotidiana e solos de guitarra. Vejo, com divertida surpresa, que desde a última rusga da polícia afixaram um icónico e colorido Proibido fumar charros e que, ao abrigo das leis sobre a acessibilidade, o fizeram acompanhar da mensagem escrita. Lembro-me dos ingleses olhando, do Tejo, uma Lisboa reconstruida em cénicas fachadas atrás das quais se escondem os escombros do terramoto e penso no que tudo isto tem de ilusório.
E o circo recomeça, no seu vaivém apressado de gente que sobe e volta a subir as mesmas escadas com a mesma pressa e diferentes mãos que as empurram por trás. Outros recolhem placidamente os proventos com que fazem apostas à bola no bilhar do salão de jogos da esquina.
Um subúrbio de Kingston implantado no seio de Lisboa onde se vê a brutalidade de uma vida que não escolhe continentes. E o reggae continua com a dureza de um sofrimento e de uma discriminação. Os excluídos passam por aí num vaivém que, melancólico e triste, observo e registo...

sexta-feira, março 30

Agradecimento em tom de homenagem



Quando a alma se sentiu presa e agrilhoada nos meandros recurvos do pesadelo, uma Dália Negra soube estar presente e iluminar-me o caminho. Obrigado e um beijo
Ricardo

quarta-feira, março 28

Homenagens: Herberto Hélder (1930- )



Fonte - I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.


Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.




O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.



(a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Há cidades cor de pérola onde as mulheres

V


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Os Animais Carnívoros

I


Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo

sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia

depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um

parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais

diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-

bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava

impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o

que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e

urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às

nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então

os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha

intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora

era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos

eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era

uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas

abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


(simília similibus)


Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas - e logo o meu dedo se poe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração - toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta - o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida
- porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma - a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.

quinta-feira, março 15

Eucaristia erótico-sentimental

Um beijo suave na nuca adormecida,
um olhar sonolento de indolente ternura
um «Agora dorme, meu Bem»
Já, agora e sempre!
Amén

terça-feira, fevereiro 20

Lisboa: Recantos III



No mais interno fundo das profundas
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
Lá donde as ondas saem furibundas,
Quando às iras do vento o mar responde,
Neptuno mora e moram as jucundas
Nereidas e outros Deuses do mar, onde
As águas campo deixam às cidades
Que habitam estas húmidas Deidades.

Os lusíadas (VI, 8)

Do Soberano dos Mares realizou, Joaquim Machado de Castro, em mármore de Carrara, em 1771, uma monumental estátua que representava o Deus dos Mares, de Tridente na mão, os cabelos revoltos e o olhar feroz, as vestes ondeando-lhe no vento tempestuoso, avançando sobre uma concha transportada por dois golfinhos e, no tom intimidatório do Tridente belicamente empunhado, o aviso a súbditos e inimigos. A estátua, destinada inicialmente a encimar o Chafariz do Loreto, situado sensivelmente onde hoje se encontra a entrada para o Metro junto à Brasileira, iria ser removida com a demolição do mesmo chafariz e sucessivamente depositada na Mãe de Água,no Museu do Carmo e no Depósito de Águas dos Barbadinhos. Encontra-se actualmente, e desde 1951, no Largo de D. Estefânia em Lisboa.



O Chafariz do Loreto numa ilustração de Charles Legrand (circa 1842)
(imagem pertence à Biblioteca Nacional de Lisboa)



Foto de Judah Benoliel, de 1951, já no Largo de D. Estefânia.
(Foto do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa)

___________

Numa noite de Inverno,



com as ideias obscuras,



andei à tua volta como quem procura o Norte



e só mais para baixo o vai encontrar,



lá para onde Prometeu uma ténue luz mostra aos rejeitados.